Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo
Krzysztof Penderecki (1933-2020) | Fotografia de 2008 | Fonte: Wikimedia Commons

29/03/2020

Música com Rosto Humano


O compositor polaco Krzysztof Penderecki desenvolveu a carreira lado a lado com as profundas mudanças que vingaram na História da Música mais recente, desde as vanguardas modernistas do pós-guerra até à globalização civilizacional da atualidade. Para lá disso, a condição de protagonista destacado no panorama musical internacional, desde inícios da década 1960, acrescenta à sua obra um valor inestimável. As inflexões do seu percurso foram notórias. Ainda assim, a identidade criativa que o distinguia manteve-se incólume. Diante das notas em papel pautado, deu sempre primazia a um espírito de busca insaciável, à intensidade expressiva e emocional, a uma música com rosto humano.

**

Há características que atravessam toda a obra de Krzysztof Penderecki. A mais notória é uma emotividade dolente, cirurgicamente pontuada por rasgos de grande ímpeto e intensidade dramática, por vezes ancorada numa pulsão espiritual e religiosa. Também a síntese entre o passado e o presente, um equilíbrio entre formatos estabelecidos e a procura de novos recursos criativos. Estas tendências já se faziam sentir na primeira fase da sua carreira, quando explorava ostensivamente técnicas que rompiam com convenções centenárias. Obras como Trenodia para as vítimas de Hiroshima (1960) e Paixão Segundo São Lucas (1966) valeram-lhe então o reconhecimento internacional, tanto mais porque a ousadia provinha de um compositor radicado no bloco soviético – ainda que no contexto do Degelo de Kruschev. Já em meados dos anos 1970, coincidindo com o período em que lecionou nos E.U.A., houve uma mudança no seu estilo. Passou a integrar soluções musicais de séculos passados. Enfrentou as críticas dos adeptos mais fervorosos das tendências vanguardistas, mas também começou a captar a atenção de uma faixa de público mais abrangente. Esta orientação neo-romântica tinha afinidades tão diversas como a polifonia renascentista, os artifícios concertantes do período barroco, as dissoluções cromáticas wagnerianas, o temperamento dramatúrgico de Mahler, o decadentismo de Bruckner ou a inquietude rítmica de Schostakovich. De certo modo, a sua música tornou-se mais acessível. Recuperou métricas regulares e harmonias inteligíveis, por vezes no âmbito de uma tonalidade explícita. Também as orquestrações se tornaram mais transparentes. Por sinal, este último aspeto distingue bastante toda a música orquestral de Penderecki. Desde sempre, tendeu a inovar na forma como articulava e combinava as sonoridades dos diferentes instrumentos, explorando os limites das possibilidades da orquestra, como quem projeta um instrumento que ainda está por inventar.