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Fantasia Sinfónica

Schumann chegou a ponderar chamar Fantasia Sinfónica à Sinfonia em Ré Menor, a mesma que seria publicada como N.º 4, apesar de ter sido a segunda que compôs. Na tradição musical, a palavra «fantasia» remete para liberdade formal, o que pressupõe seguir o impulso criativo na vez de um plano pré-estabelecido. Quer isto dizer que esta não é uma sinfonia clássica convencional. É certo que cumpre a sequência de quatro andamentos. Mas estes são executados sem interrupções e tudo se encadeia num fluxo contínuo, como quem pensa em voz alta.

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Schumann sofria de transtorno bipolar. Vivia períodos de euforia alternados com outros de depressão profunda. Era nos primeiros que compunha mais música. Curiosamente, a Sinfonia N.º 4 é fruto das duas condições. Bastou uma semana para ser esboçada, e logo foi estreada, a 6 de dezembro de 1841. Ainda ecoava o sucesso da Sinfonia N.º 1 com a mesma orquestra da Gewandhaus de Leipzig, mas desta vez sem a direção de Mendelssohn. O evento foi «dominado» pela presença de Franz Liszt, pelo que a sinfonia foi relegada para segundo plano, recebida sem entusiasmo e assim posta de parte. Dez anos mais tarde, aquando da revisão da partitura, o músico enfrentava sintomas de depressão. Portanto, e recorrendo aos alter egos com que tinha antes assinado os textos na revista Neue Zeitschrift für Musik, poder-se-á dizer que a sinfonia foi composta por Florestan, ao passo que a revisão foi feita por Eusébio. As duas versões diferem, sobretudo, no primeiro e último andamentos, e em particular no que respeita à orquestração e às indicações de tempo. As notas são praticamente as mesmas, mas a expressão genérica alterou-se ligeiramente. A versão de 1851 tem texturas orquestrais mais densas, e algumas partes tornaram-se mais lentas. Introduz assim um clima majestoso, por vezes sombrio. Brahms considerava a versão de 1841 mais espontânea, chegando mesmo a tentar publicá-la postumamente. Porém, Clara Schumann entendia de maneira diferente e opôs-se, por considerar que traía a última vontade do marido. Com efeito, Schumann escreveu certa vez a um amigo: «Reorquestrei totalmente a sinfonia e, é claro, tornei-a melhor e mais eficaz do que era antes.» A nova estreia aconteceu com grande sucesso no dia 3 de março de 1853 na Geislerscher Saal de Düsseldorf, sob direção do próprio compositor.

Apesar da revisão, as características distintivas da sinfonia mantiveram-se. Já na versão de 1841, Schumann eliminara as pausas entre os quatro andamentos. Assim encadeadas, as recorrências temáticas reforçam subtilmente a ideia de unidade. O tema inicial comporta-se como núcleo gerador que reaparece ciclicamente reconfigurado ao longo da sinfonia, que em cada instante interpela a memória do ouvinte e alimenta a sensação de desenvolvimento orgânico. E apesar disso, tal não impede que cada andamento cumpra a sua função. O segundo é uma Romanza. Predominantemente lírico, explana-se em melodias de proporções regulares sobre um acompanhamento discreto, mas rico em detalhes. O terceiro articula padrões ritmos enérgicos que se repetem numa retórica imitativa. O quarto cumpre exemplarmente o dramatismo e o arrebatadamento que se espera de um Finale no repertório romântico. Estrutura-se em forma sonata (Exposição-Desenvolvimento-Reexposição-Coda) e conduz-nos até uma conclusão triunfante. A característica dominante continua a ser a transformação temática. Os motivos reaparecem com alterações nos contornos melódicos, no ritmo, nas articulações dinâmicas e na própria orquestração. Schumann arriscava novas soluções de escrita.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Praça do Mercado de Leipzig em 1850 / Gravura de S. Robrock