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Da Paixão à Comédia Sentimental

Datada de 1768, a Sinfonia N.º 49 de Joseph Haydn tornou-se conhecida como «A Paixão». O título combina na perfeição com a cadência processional que lhe dá início, um Adagio que se estende por nove minutos carregados de lamento e comoção. Seguem-se, todavia, três andamentos muito contrastantes, mais condizentes com o bulício de uma representação teatral. Tal como acontece com tantas outras sinfonias de Haydn, pouco sabemos do primeiro propósito. Mas é certo que ainda hoje desperta a nossa imaginação.

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Durante muitos anos pensou-se que o título pelo qual se conhece a Sinfonia N.º 49 de Haydn se devia à intenção deliberada de ilustrar a Paixão de Cristo. O primeiro andamento favorece essa sugestão, porque a cadência lenta em tom menor transmite uma expressão dolente. Para lá disso, a estrutura da sinfonia, no seu todo, assemelha-se às Sonatas de Igreja barrocas, com quatro andamentos na disposição Lento-Rápido-Lento-Rápido. Na verdade, não foi Haydn quem colocou o título. A primeira alusão que nos chegou acha-se num manuscrito datado de 1790 e que terá sido anteriormente utilizado quando a sinfonia foi tocada em celebrações da Semana Santa em Schwerin, uma cidade situada no nordeste da Alemanha. Com efeito, entre 1756 e 1785, a música profana havia sido proibida em toda aquela região no período da Quaresma. A par da representação de oratórias sobre o derradeiro ciclo da vida de Jesus, também se queria fazer música orquestral, nem que para tal fosse necessário atribuir-lhe uma conotação religiosa – neste caso por intermédio de um título.

Por outro lado, temos notícia de uma outra «apropriação», da mesma época, mas de caráter bastante diferente. Entre 1772 e 1776, houve uma companhia de teatro que se apresentou com regularidade no Palácio Esterháza. A música de Haydn era nessas ocasiões recuperada na condição de interlúdio das representações cénicas. Terá sido assim, por exemplo, que a Sinfonia N.º 60 passou a chamar-se em 1774 O Distraído, em virtude da peça teatral homónima de Jean-François Regnard. Também por esses anos se representou ali «A Jovem Indiana», uma comédia em um ato com versos de Sébastien-Roch Nicolas de Chamfort. Foi mais tarde achado em Viena um outro manuscrito desta mesma Sinfonia N.º 49 em que aparece a referência explícita a um Quacre, membro de um grupo religioso ligado ao protestantismo britânico e que é personagem naquela comédia. Poderá isto indiciar que a mesma sinfonia também foi música de cena.

Seja como for, conjuntamente com as sinfonias 44 e 45, a 49 é tida como um dos mais notórios exemplos da expressão em música do Sturm und Drang, movimento estético germânico cuja denominação se traduz aproximadamente por «Tormenta e Força». A tendência, que provinha da literatura e das artes cénicas, foi transposta para a prática musical como alternativa à leveza do Estilo Galante que havia estado em voga em meados do século XVIII. Propunha-se, assim, um discurso musical marcado por súbitas mudanças de humor e pela inquietação expressiva. Esta é uma assinatura inequívoca de Joseph Haydn.

 

Texto de Rui Campos Leitão