Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

Concerto para Violoncelo N.º 1 de Chostakovitch

O violoncelista virtuoso russo Mstislav Rostropovich teve a oportunidade de encomendar ao longo da carreira vários concertos aos mais destacados compositores do seu tempo. Contam-se entre eles L. Bernstein, B. Britten, W. Lutosławski, F. Lopes-Graça e, naturalmente, D. Chostakovitch. Entre todos, terá sido este último o mais bem sucedido. Composto em 1959, este seu primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra logo se tornou numa peça de repertório incontornável, quer para violoncelistas quer para o público melómano.

**

Na partitura do Concerto para Violoncelo N.º 1 de Chostakovitch reconhece-se a irreverência do jovem Stravinsky e a imponência orquestral de Tchaikovsky, mas sobretudo a singularidade de um discurso pessoal, intimista, próprio de um artista que enfrentou os constrangimentos de um percurso criativo que conviveu com a política do regime soviético. Sente-se obstinação, mas também o «despropósito» de um registo grotesco, alternado com uma angústia intensa.

Na vez dos três andamentos que seria de esperar, contam-se quatro, sendo os trêsúltimos tocados sem interrupção. Apesar disso, o terceiro pode ser entendido como uma cadência que se instala na mais profunda compenetração. O último andamento resulta, depois disso, algo paradoxal. É exuberante, mas inquieto, pela maneira como combina vivacidade e precipitação no discurso. O motivo melódico de quatro notas que prevalece ao longo do primeiro andamento assume particular importância no conjunto da obra, ressurgindo no final com grande destaque. Revela-se então, na tradução das notas do solfejo (notação musical germânica) um criptograma com as iniciais do nome do compositor D-S-C-H. Sublinha-se assim a faceta de testemunho pessoal que perpassa por esta obra.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Mstislav Rostropovich em 1970 / Fotografia de Oleg Makarov / Commons: RIA Novosti