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Chaconne em Memória de João Paulo II

No período barroco, Chaconne era uma dança espanhola que consistia em variações sucessivas sobre uma linha de baixo repetitiva. Foi depois reconfigurada pelos franceses numa dança lenta e solene. Em 2005, Krzysztof Penderecki recorreu a essa mesma solenidade para homenagear postumamente o seu compatriota Karol Josef Wojtyla, o Papa João Paulo II. Em diálogo com o passado, coroou o Requiem Polaco com esta elegia.

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O Requiem Polaco de Penderecki é uma composição coral-sinfónica com quase duas horas de duração. Em grande parte, foi composta na primeira metade da década de 1980. Seria depois revista e alargada ao longo dos anos, sobretudo em 1993, e concluída em 2005. Ao contrário das célebres missas dos mortos de Mozart e de Verdi, não respeita o formato estritamente litúrgico. À estrutura tradicional do Requiem cantado em latim, acrescenta várias secções que, para lá de sonoridades tradicionais e modernistas, ostentam manifestos laudatórios de causas emblemáticas da nação. Entre eles, distinguem-se homenagens dirigidas àqueles que enfrentaram os jugos dos regimes nazi e soviético: o movimento Solidariedade, pela luta pelos direitos civis e pela democracia; o cardeal Stefan Wyszyński, pela defesa da Igreja Católica e da identidade polaca; o padre franciscano Maximiliano Kolbe, vítima do holocausto em Auschwitz; os revoltosos do gueto de Varsóvia; os mártires do massacre da floresta de Katyn.

Em 2005, na comoção da morte recente de João Paulo II, Penderecki decidiu acrescentar em sua memória esta pequena peça tocada pelas cordas da orquestra. Era um gesto público de admiração e respeito diante da perda de uma figura tão importante e tão estimada na Polónia e no mundo. Colocou-a entre o Sanctus e o Agnus Dei. Em si mesma, a partitura divide-se em nove partes cujas características evoluem no que respeita à duração, às dinâmicas e às articulações. Muito subtilmente, sobrepõe influências estilísticas tão diversas como a polifonia barroca, a forma clássica Tema e Variações, uma expressão melódica conforme à tradição romântica e harmonias plenas de modernidade.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Papa João Paulo II em 1985 / Fonte: Wikimedia Commons