António Victorino d’Almeida foi ao longo da vida um divulgador incansável da Música. Todavia, e algo paradoxalmente, o seu vasto catálogo enquanto compositor ainda aguarda a merecida divulgação. Comecemos pela Abertura Clássica (sobre um tema popular português), um obra de 1991.
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Na revista Glosas publicada em novembro de 2011, o compositor Sérgio Azevedo recomenda a audição desta mesma Abertura Clássica para todos aqueles que nunca escutaram antes a música de António Victorino d’Almeida. Realça-se aí uma demonstração do domínio técnico que Victorino d’Almeida tem sobre o estilo de escrita dos clássicos da segunda metade do século XVIII. Identificam-se texturas orquestrais cristalinas na intervenção equilibrada de todos os naipes da orquestra em cada instante. A construção formal é irrepreensível, pelo modo como se propõe trabalhar e desenvolver o tema melódico apresentado de início.
Naquela primeira escuta de que se falava em cima, um dos aspetos mais curiosos que logo ressalta é a circunstância de a melodia, essa mesma que aparece indicada na partitura como «um tema popular português», nos parecer tremendamente familiar. Com efeito, trata-se da música que a Comissão Política do PCP escolheu em meados dos anos 1980 para servir como marca sonora indicativa das campanhas eleitorais, nos altifalantes das caravanas e nos tempos de antena televisivos. Na origem, trata-se da «Carvalhesa» uma melodia tradicional de Trás-os- Montes que se encontra no livro publicado por Michel Giacometti em 1981 com o título «Cancioneiro Popular Português». Giacometti havia aí recuperado uma melodia recolhida naquela região pelo etnólogo alemão Max Friedlander em 1932, por sua vez publicada nos E.U.A. em 1941 no livro «Folk Music and Poetry of Spain and Portugal».
Rui Campos Leitão