Há um aparato virtuosístico que não passa despercebido no Concerto para Violino de Johannes Brahms. Mas assiste-se também a uma expressão lírica intensa que obriga o violinista a comportar-se com à-vontade, parecendo fácil! As melodias prolongam-se imensuravelmente, sempre com eloquência, mas sobre posições difíceis do instrumento e intervenções pouco previsíveis. O concerto foi estreado em 1879 por Joseph Joachim, o dedicatário da obra. A amizade entre o compositor e o violinista será chave para desvendar alguns enigmas que a obra transparece.
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Este é um dos Concertos para Violino mais populares de sempre. Coloca, porém, extraordinários desafios aos violinistas que se propõem tocá-lo. Em vários momentos, tal como acontece no célebre início do terceiro (e último) andamento, o solista toca continuamente e com grande velocidade duas notas em simultâneo, exigindo-se apesar disso a mesma naturalidade que resultaria em instrumentos mais adequados para o efeito – tais como o piano, por exemplo. É por esta razão que um violinista vienense contemporâneo de Brahms, Josef Hellmesberger, fez certo dia um comentário que se tornou célebre, dizendo que não se tratava de um Concerto «para» Violino, mas sim de um Concerto «contra» o Violino. Ressalva-se, porém, que não se trata de soluções de escrita inadequadas às qualidades próprias do instrumento, contrariamente ao que acontece em tantos outras peças do repertório. Brahms era pianista, mas contou com a colaboração de um grande violinista daquela época, o próprio Joseph Joachim, a fim de conseguir os efeitos musicais que hoje nos encantam.
Esta é uma obra que atravessa grande variedade de ambientes, desviando-se nalguns momentos de maneira repentina de sonoridades soturnas para enfrentar a exaltação épica. Assim acontece logo no andamento inicial, na primeira grande intervenção do violino. Sobre tudo isto, instala-se uma relação entre o solista e a orquestra tremendamente dramática. Por vezes mais parece ser uma sinfonia do que um concerto, tal é a imponência e a densidade da presença orquestral. As primeiras páginas deste concerto são bom exemplo disso, com uma introdução lenta da orquestra que faz lembrar o início da Sinfonia N.º 2, evoluindo rapidamente na direção de acordes maciços contundentes. O violino floresce quase indistintamente a partir daí com uma persuasão que se afirma ao longo do tempo. Esta disputa de protagonismo entre solista e orquestra acha outro exemplo no início do segundo andamento, quando Brahms prefere confiar «a mais bela das melodias» ao oboé, na vez do violino. Curiosamente, quando o violino retoma a mesma melodia, não o faz com precisão, como se vagueasse melancolicamente e sem rumo. A relação parece ambígua, mas no andamento final tudo desemboca em sonoridades que não escondem afinidades com a música cigana que estava tão em moda nas últimas décadas do século XIX. Afinal, Joachim era de origem húngara.
Rui Campos Leitão