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Bolero de Ravel

O Bolero é uma das peças mais emblemáticas do repertório orquestral. Consequentemente, é também aquela que mais contribuiu para tornar o nome de Ravel universalmente conhecido. Foi originalmente criada para um bailado que estreou em novembro de 1928 na Ópera de Paris. Porém, desde logo, a partitura emancipou-se da coreografia e passou a ser tocada autonomamente em todo o mundo. Depois, vieram os discos e os filmes, e tornou-se num ícone da cultura popular.

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Ida Rubinstein, bailarina que integrara anteriormente os Ballets Russes, desafiou Ravel para participar no projeto de um novo bailado. O convite não era surpreendente, pois já havia antes levado à cena o seu «poema coreográfico» La Valse. Primeiro, propôs-lhe que orquestrasse a suíte para piano Iberia, de Isaac Albeniz. Porém, condicionalismos decorrentes de direitos autorais impediram que assim se fizesse. A contraproposta foi compor música original igualmente inspirada na tradição popular espanhola. A escolha recaiu sobre o Bolero, uma dança que se tornou popular no sul de Espanha no século XVIII e que, normalmente, era tocada por uma guitarra e castanholas. A coreografia foi confiada a Bronislawa Nijinska, a irmã mais nova de Vaslav Nijinsky que também fora bailarina dos Ballet Russes.

O enredo passava-se no interior de uma estalagem andaluza. Ao centro, uma mesa de grandes dimensões e um candeeiro suspenso. Em volta, cerca de duas dezenas de homens refestelados pelo chão e pelas cadeiras. Uma bailarina com xaile e castanholas sobe então para o cimo da mesa e começa a dançar vagarosamente (papel interpretado por Ida Rubinstein). À medida que a música prossegue, a quietude esvai-se. De início sonolentos, os homens despertam com a música e, gradualmente, dançam em rodopios cada vais mais enérgicos. Tudo se desenrola numa clima de sedução que culmina em êxtase.

A música era insólita. Uma célula rítmica de dois compassos repete-se monótona e insistentemente, servindo de sustentação ao longo de todo o tempo – é o padrão rítmico do Bolero, se bem que tocado mais lentamente. Surge então o tema melódico na flauta, como se alguém assobiasse displicentemente em passeio pelas ruas de uma cidade. Reminiscente das origens bascas de Ravel, esta melodia repete-se 18 vezes em períodos sucessivos de 16 compassos. Seguem-se o clarinete, o fagote, a trompete, o saxofone, a trompa… Enquanto isso, as cordas pontuam o ritmo com pizzicatos, pulsando as cordas com os dedos, como se uma guitarra fosse. Assim, com recursos aparentemente mínimos, o efeito progressivo assenta em dois recursos. Primeiro, um crescendo que nos conduz inexoravelmente do silêncio ao estrépito. Segundo, e para lá desta evolução dinâmica, assistimos a uma gestão exímia dos recursos da orquestra estruturada na forma Tema e Variações, sendo que a melodia se mantém inalterada e as variações se acham nos timbres dos instrumentos. Há um processo de inversão progressivo. A melodia, com os seus contratempos rítmicos, destaca-se de início. Mas depois a orquestração assume o protagonismo e revela-se, pouco a pouco, protagonista.

O Bolero de Ravel suscita as mais variadas interpretações. As sugestões eróticas são frequentemente assinaladas, inspiradas por um enredo onde a energia passional crescente culmina num clímax alucinante. Este êxtase também se compara a um ritual sagrado. Temos depois as visões apocalípticas, como se uma edificação monumental colapsasse como um baralho de cartas. Evoca-se aqui a acumulação do medo, a dor e a morte. Ainda, o fascínio pela automação humana, enquanto ilustração imagética de padrões comportamentais que se repetem mecanicamente. Até a sintomatologia patológica é aludida, pois a demência que vitimou o compositor nos últimos anos de vida teve os primeiros sintomas em 1927, quando se sentiu desorientado durante um concerto. Sejam quais forem as leituras, é música que inquieta e diante da qual ninguém fica indiferente.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Ida Rubinstein cerca de 1910 | Pintura de Léon Bakst | Fonte: Wikimedia Commons