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As Quatro Estações Recompostas

Nascido na Alemanha, criado e formado em Inglaterra, Max Richter tem vindo desde há mais de duas décadas a compor bandas sonoras para filmes e a publicar álbuns que favorecem, em simultâneo, a atenção contemplativa e a afetação emocional. A sua música constrói-se nessa tensão dramática do confronto entre reminiscências difusas que despertam memórias coletivas e comoções latentes individuais. A crítica especializada inscreve o seu trabalho nos estilos «clássico contemporâneo» e «pós-minimalista». Mas em cada projeto revela novas vertentes, desde a densidade narrativa de Memoryhouse (2002) ao registo meditativo de From Sleep (2015) e à serenidade de In a Landscape (2024). As Quatro Estações Recompostas (2012) resgatam a aura dos célebres concertos de Vivaldi que vem sendo exaurida pela mediatização massiva.

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Max Richter procurou reconciliar-se com As Quatro Estações de Antonio Vivaldi ultrapassando a saturação que tantos partilham. Para o efeito, ensaiou um exercício de reencantamento que consiste na apropriação ostensiva de algo que se tornou num bem de consumo esmagado por conotações múltiplas. Trata-se, portanto, de uma recontextualização criativa que desloca o foco da escuta para lhe acrescentar diferentes propósitos e motivações. Não pode, de modo algum, ser entendida como alternativa contemporânea à obra‑prima do compositor veneziano. Esta discorre transfigurada, mas como se fosse uma instalação cénica, uma tela de fundo colocada ao serviço da inscrição de novas experiências, reflexões e narrativas. A dimensão histórica e patrimonial dissipa-se na exposição crua de uma nova existência. Resulta assim uma sonoridade mais afim ao nosso tempo.

Aparentemente, ressalta a estreita proximidade com a versão original. Mas  Richter expõe deliberadamente a sua intromissão. Estruturalmente, a ordem dos quatro concertos – e respetivos andamentos – é preservada. As células rítmicas, os motivos melódicos e as sequência harmónicas também. Porém, sobrepõem-se dois planos narrativos que coexistem em simbiose. Quer isto dizer que As Estações de Vivaldi permanecem presentes, mas são objeto de fragmentações esparsas, suspensões, intromissões inusitadas e contorções dinâmicas. É como se ouvíssemos duas músicas em simultâneo que, juntas, dão origem a um terceiro espaço mental habitado pelo ouvinte.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Max Richter em 2026 / Fonte: Wikimedia Commons