O Andante Festivo foi composto em 1922 para comemorar o aniversário de uma empresa de transformação de madeiras em Säynätsalo, localidade situada cerca de 300 quilómetros a norte de Helsínquia. Sete anos mais tarde, Sibelius duplicou as partes do quarteto de cordas original, introduziu ligeiras alterações e fê-lo soar no casamento de sua sobrinha. Já no primeiro dia do ano de 1939 deu-lhe novo destino. Transformou-o na obra orquestral que dirigiu à frente da Orquestra Sinfónica da Rádio Finlandesa para radiodifusão junto dos visitantes da Exposição Mundial de Nova Iorque. Essa foi a última vez que subiu ao estrado enquanto maestro. É notável como a solenidade desta pequena peça se ajusta às mais diversas ocasiões cerimoniosas. Não espanta que em setembro de 1957 também tenha sido tocada nas suas exéquias.
**
A estrutura do Andante Festivo é muito simples. Consiste em variações sobre um tema melódico ao estilo da polifonia coral renascentista, com flutuações dinâmicas muito cuidadas e sequências harmónicas que progridem lentamente sobre uma pulsação cadenciada.
Curiosamente, são as subtis variações de volume e de velocidade que lhe permitem adaptar-se aos mais diferentes contextos de apresentação. Podemos hoje ouvir o registo gravado da estreia da versão de 1939 (disponível no Youtube). Como tantos outros, Sibelius ouvia bastante rádio nos anos 1930. Tratando-se de um músico, não lhe eram indiferentes as interferências geradas pelas transmissões por onda curta e a fraca qualidade do som reproduzido nos altifalantes da época, o que proporcionava uma experiência de audição muito insatisfatória. Entendia que, para vingar nesse moderno meio de difusão, a música teria de ser tocada mais lentamente.
Aquela gravação não é, portanto, uma referência categórica. Existe sempre margem para as decisões interpretativas que melhor expressam aquelas mesmas frases que sobressaem com periodicidade previsível nos violinos; para dar ênfase à comoção afetiva provocada pelas combinações intervalares que enredam as «vozes» da orquestra; para fazer evoluir acordes nas entoações de passagem e nas breves dissonâncias que provocam momentos de tensão e confronto – de umas notas contra as outras notas – e que sempre culminam numa concordância homófona. Em todo o caso, essa atmosfera meditativa, ora majestosa ora pesarosa, instala-se numa cadeia de suspensões e resoluções que sugerem repouso e alívio, rumo a um final que traz à memória a palavra «Amém».
Rui Campos Leitão
Imagem: Jean Sibelius em 1913 / Fonte: Wikimedia Commons