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Abertura da ópera «O Barbeiro de Sevilha»

A Abertura da ópera O Barbeiro de Sevilha é uma obra-prima do repertório operático. Foi composta por Gioachino Rossini em 1816 e distingue-se pela energia rítmica e pela invenção melódica. Nesse sentido, ilustra bem o estilo inconfundível do compositor italiano. Ao longo de duzentos anos conquistou vida própria. Destaca-se frequentemente da ópera para ser tocada em salas de concerto de todo o mundo.

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O libreto d’O Barbeiro de Sevilha passa-se naquela cidade espanhola e gira em torno das armações do Conde Almaviva para conquistar Rosina, uma jovem que se encontra à guarda do velho ciumento Dr. Bartolo. Este, por seu turno, também pretende casar-se com ela, para tomar sua fortuna. Mas Almaviva conta com a ajuda das preciosas artimanhas de Figaro para se aproximar de Rosina, e sem nunca revelar sua identidade. Rosina tira proveito da situação, para escapar a Bartolo. Ultrapassadas muitas confusões, mal-entendidos e situações divertidas, acaba por ser bem sucedido. E o casamento acontece.

Curiosamente, a música desta abertura não inclui quaisquer temas melódicos da ópera. Isso acontece porque foi recuperada de duas óperas anteriores, também de Rossini: Aureliano in Palmira (1813) e Elisabetta, regina d’Inghilterra (1815). Esta reutilização demonstra bem o sentido prático do compositor italiano. Mas leva a perguntar se nos é hoje possível escutá-la enquanto projeção antecipada de personagens ou peripécias do enredo. Com efeito, tal não acontece de maneira explícita, mas a essência do espetáculo está toda lá. Com desenvoltura, muita energia e sentido de humor, é absolutamente coerente com o espírito da ópera. Prepara o ouvinte sem a necessidade de evocar musicalmente aspetos narrativos.

Tudo começa com uma introdução lenta pontuada por acordes abruptos e uma melodia insinuante que instala uma atmosfera misteriosa. Irrompe depois a música que todos conhecemos, marcada pela vivacidade rítmica, interrupções súbitas e os típicos crescendi de Rossini (a evolução lenta e gradual desde o pianissimo até ao fortisssimo). Toda a orquestra é chamada a intervir, desde as flautas até aos contrabaixos. Nos «diálogos» das cordas com os sopros, destacam-se duas melodias que refletem a alternância entre a agitação da intriga e o encantamento amoroso. A primeira é extremamente rápida, com figuras repetidas que criam uma sensação de urgência e imprevisibilidade. A segunda contrasta pelo seu lirismo. O tom burlesco mistura-se assim com a afetação sentimental. Criam-se efeitos de surpresa e bom humor que retratam certeiramente aquilo que sobe à cena nos dois atos que se seguem.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Gravura de Louis Maleuvre com figurino de Cesare Sterbini para o personagem Figaro (1829) / Fonte: BnF Gallica