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Aaron Copland | desenho de Richard Hurd a partir de fotografia | Fonte: flickr

02/10/2020

Aaron Copland


Aaron Copland é o compositor que, por excelência, melhor representa o florescimento da tradição musical clássica nos Estados Unidos da América ao longo do século passado. A sua música apropria-se de uma cultura centenária que nasceu no velho continente, mas expressa genuinamente a identidade norte-americana, ao mesmo tempo alegre e cheia de determinação, na sua insistente vontade de romper horizontes.

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A Fanfarra para um Homem Comum deverá ser a peça mais conhecida de Aaron Copland. Foi escrita em plena 2.ª Grande Guerra e inspirou-se num discurso em que o então vice presidente Henry Wallace proclamava uma nova era, centrada no «cidadão comum» e assente numa ordem mundial construída sobre um sistema liberal em que a justiça, a liberdade e as oportunidades iguais promoveriam a paz global. Mas há outras obras que explicam bem melhor a importância do seu legado. São os casos da suíte orquestral Primavera dos Apalaches, uma síntese da partitura que Copland destinou ao bailado em que Martha Graham recriou as aventuras e desventuras de um jovem casal nas montanhas da Pensilvânia em inícios do século XIX, e o Concerto para Clarinete e Orquestra, originalmente escrito para o clarinetista de jazz Benny Goodman.

 

Fanfarra para um Homem Comum (1942)

O ataque dos japoneses à base naval norte-americana de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, motivou a entrada definitiva dos E.U.A. na Segunda Grande Guerra Mundial, mobilizando para o efeito todos os setores da sociedade. Também a cultura participou ativamente nesse movimento. É disso exemplo o convite que foi feito pela Orquestra Sinfónica de Cincinnati a dezoito compositores para comporem fanfarras que serviram de abertura orquestral em cada um dos concertos da temporada 1942/1943, a fim de enaltecer a força e a moral de um povo. O contributo de Aaron Copland ouviu-se no dia de 12 de março de 1943. O título que o compositor atribuiu a essa curta composição é curioso. Na vez de celebrar um feito heróico ou uma grande figura política ou militar, dirige-se explicitamente ao «homem comum». Afinal, como mais tarde o próprio músico esclareceu, é o homem comum quem se vê obrigado a fazer o trabalho sujo das guerras, pelo que merecem que lhes seja dedicada uma fanfarra. Chegou também a dizer que a popularidade da obra se deveu a essa referência, e não à música, por si mesma. Com efeito, muito embora tenha tido origem como um mero apontamento de circunstância, esta partitura conta-se entre as mais célebres de toda a produção de Copland, a tal ponto que a sua presença se tornou rotineira na televisão, no cinema e nos mais variados eventos públicos organizados nos E.U.A.

 

Concerto para Clarinete e Orquestra (1948)

No seguimento dos pioneiros George Gershwin e Paul Whiteman, foram muitos os projetos que nos anos 1940 procuraram aproximar os universos do jazz e da música de tradição clássica. Um dos exemplos mais importantes dessa tendência foi o clarinetista e «Rei do Swing» Benny Goodman (1909–1986). No seu caso, encomendava a compositores prestigiados obras para si próprio enquanto intérprete. Já antes o havia feito junto de Béla Bartók e de Paul Hindemith, mas no início de 1947 dirigiu-se a Aaron Copland pedindo-lhe um concerto – para clarinete e orquestra, claro está. Resultou assim a obra que seria estreada em novembro de 1950. Em virtude do solista a quem se destinava, não espanta, portanto, que se sobressaiam sonoridades jazzísticas e alusões à música popular, ainda que de maneira muito discreta, sobretudo no primeiro andamento, uma valsa lenta de cariz melancólico. Vislumbra-se, ainda, nalguns momentos, ritmos de cariz brasileiro, o que se terá devido à circunstância de parte da obra ter sido composta durante uma digressão do compositor à América do Sul. Copland optou então por escrever para um dispositivo orquestral que junta às cordas somente uma harpa e um piano. Na vez dos expectáveis três andamentos de matriz clássica, apresenta somente dois, com uma cadenza pelo meio que, para lá de evidenciar as capacidades artísticas do solista, introduz os temas que são explorados de modo mais efusivo no segundo andamento que se segue. Por fim, destaca-se uma nota de bom humor, talvez um gesto de homenagem. Nos derradeiros compassos, ouve-se um motivo ascendente no clarinete que recorda o emblemático início de Rhapsody in Blue de Gershwin.

 

Appalachian Spring (1944)

Martha Graham (1894-1991) estreou o bailado Appalachian Spring em 1944, em Washington. A música, assinada por Aaron Copland, foi originalmente composta para a ocasião, ao encontro de um enredo que se inspirava nas tradições rurais da Pensilvânia no século XIX. Graham fundara nos anos 1920 uma escola de dança em Nova Iorque que se distinguiu pela importância dada às raízes culturais norte-americanas. Coreografias como Primitive Mysteries (1931) e American Provincials (1934) inspiravam-se, precisamente, em aspetos ancestrais dessa cultura, atendendo de igual modo aos legados dos povos indígenas e dos colonizadores. Após várias tentativas, a sua companhia de dança conseguiu reunir o apoio financeiro necessário para ter a colaboração de Copland. Foi então enviado um guião que serviu de base para o músico iniciar o seu trabalho, ainda que o tenha sempre feito quase à distância, praticamente até aos derradeiros ensaios.

O libreto retrata uma festa de primavera em torno da inauguração da casa de um jovem casal. Mas por detrás do quadro sentimental e do ambiente nostálgico que atravessa todo o espetáculo, vislumbra-se uma reflexão política sobre a identidade de um povo. Neste sentido, apontam-se as figuras mais emblemáticas daquela tradição, tais como a noiva e o agricultor, seu noivo, os crentes puritanos, o reverendo, a matriarca, o pioneiro, o cidadão e o abolicionista. Evoca-se a vida dessas gentes, a construção das casas, os namoros, os nascimentos das crianças, os casamentos e a guerra. Não por acaso, Copland integrou na sua partitura o hino «Simple Gifts», com o qual se celebrava a alegria de viver no contexto da comunidade religiosa Shakers radicada naquele território. Originalmente composta para treze instrumentos, o próprio compositor estendeu esta instrumentação numa suíte orquestral que destaca as partes mais idílicas do bailado.