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A Sinfonieta de Raff

A História da Música e as programações das salas de concerto tendem a canonizar um núcleo relativamente restrito de obras e compositores. Baseiam-se em narrativas que excluem, necessariamente, universos mais abrangentes. Resulta assim a impressão de que tudo acontece em torno de obras primas e génios, minimizando a importância de muitos outros compositores cujas criações surpreendem pela qualidade quando lhes prestarmos a devida atenção. É esse o caso da Sinfonieta de Joachim Raff, uma obra que combina influências clássicas e românticas. Ao longo de quatro andamentos, distingue-se pela exploração exímia das texturas sonoras possíveis, com o «simples» recurso de dez instrumentos de sopro.

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Joachim Raff nasceu em 1822, na margem sul do Lago de Zurique, na Suíça. Aos 22 anos de idade aventurou-se na Alemanha, apadrinhado por Franz Liszt, quem lhe abriu portas para um panorama musical simultaneamente inspirador e desafiante. Enfrentou as dificuldades de um jovem artista daquela época que, apesar do imenso trabalho e talento, tardou em conseguir reconhecimento e independência. Na década de 1850, em Weimar, compôs canções, música de câmara e as óperas König Alfred e Samson. Mas foi em Wiesbaden que conseguiu consolidar reputação própria e conquistar a fama. Nas décadas de 1860 e 1870, compôs uma dezena de sinfonias, obras orquestrais diversas e concertos. Em 1877 foi nomeado Diretor do Conservatório Hoch, em Frankfurt, enveredando por um posição de equilíbrio entre os estilos vanguardistas de Wagner e Berlioz e a linhagem mais conservadora associada à figura de Brahms.

A Sinfonieta foi composta em 1873, no auge da sua carreira. A designação «Sinfonietta» foi precisamente popularizada por esta obra, referenciando a afinidade com o formato da sinfonia, mas com uma dimensão bastante menor em todos os aspetos, desde a instrumentação à duração. Assim, em vez de uma orquestra, temos pares de flautas, oboés, clarinetes, fagotes e trompas. Mantêm-se, todavia, os expectáveis quatro andamentos: o primeiro em Forma Sonata; a animação de um Scherzo com sonoridades rústicas, no segundo; a expressão  simultaneamente lamentosa e galante do terceiro; por fim, quatro breves minutos de ímpeto esfuziante.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Manuscrito da partitura da «Sinfonietta» de Raff (1875) / Fonte: IMSLP