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Wolfgang Amadeus Mozart | Gravura de Vigneron Pierre-Roch (1789-1872) | Fonte BnF

01/02/2021

A Sinfonia N.º 40 de Mozart


Entre as quarenta e uma sinfonias que Mozart escreveu, a N.º 40 é uma das mais tocadas. Todos reconhecemos a melodia que dá início ao primeiro andamento. Ainda assim, parece resistir a qualquer síndrome de desgaste. Apesar dos mais de duzentos anos de história que traz consigo – concertos, emissões radiofónicas, discos, publicidade, filmes, estudos académicos… – apresenta-se invariavelmente disposta a dialogar connosco, misteriosa, jovial, sempre com algo de novo para revelar.

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Enquanto ouvintes, sentimos muitas vezes a dificuldade em apreciar plenamente uma obra ao escutá-la pela primeira vez, porventura por falta de referências. Mas também é certo que pode ser custoso manter uma atenção genuinamente interessada quando se trata de uma música que já escutámos vezes sem conta. Nesse caso serão outros os entraves seja porque se torna previsível o que vem de seguida, porque as partes mais conhecidas obscurecem o que acontece em redor, ou outras razões Por tudo isto, é sempre deslumbrante quando uma obra musical nos cativa e surpreende de princípio ao fim em cada oportunidade independentemente de já sabermos «como tudo acaba». 

Para lá da célebre melodia inicial, desenvolve-se um discurso em quatro andamentos que cruza a transparência do estilo clássico com o dramatismo de expressão romântica. No primeiro, o acompanhamento enérgico dos instrumentos mais graves mantém a expetativa permanente de que algo está prestes a acontecer. Um curto motivo descendente reaparece insistentemente, sempre com renovado propósito. No Andante que se segue prevalece a elegância e, uma vez mais, assiste-se a uma notável concisão das ideias musicais, desta vez ao serviço de um sentimento de resignada tristeza. Já no Minueto, regressa a uma ambiência incisiva e dramática com base em acentuações sincopadas, fazendo esquecer a identidade original daquela dança social. O quarto andamento resulta na mais cabal demonstração da audácia e mestria do compositor austríaco, através de motivos contundentes que apontam a uma rutura surpreendente na secção central, o «desenvolvimento». Por fim, tudo regressa aos temas iniciais – como se nada tivesse acontecido!

 

Rui Campos Leitão