Franz Schubert compôs muita música em 1815, obras como a segunda e terceira sinfonias, um quarteto de cordas, várias peças para piano solo, duas missas, quatro composições corais e mais de uma centena de canções. Completou dezoito anos de idade em novembro e atravessava um dos períodos mais criativos da sua curta carreira. Apesar disso, só muitos anos depois da sua morte se tornou universalmente reconhecido. A Sinfonia N.º 2 é disso exemplo. Houve que esperar mais de seis décadas para ser estreada publicamente.
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A Segunda Sinfonia de Schubert foi composta entre dezembro de 1814 e março de 1815. O jovem músico tinha completado recentemente a sua formação no Seminário Imperial e Real de Viena e estreava-se como professor numa escola dirigida por seu pai. Mantinha simultaneamente um círculo de convivência informal frequentado por amigos e familiares que interpretavam as suas canções e as suas primeiras obras orquestrais. A orquestra do Seminário também o fazia, tal como aconteceu com esta sinfonia. No que respeita à escrita orquestral, foi aí que consolidou a sua aprendizagem, em contacto com aberturas de ópera, sinfonias de Haydn, Mozart e as primeiras sinfonias de Beethoven. Significa isto que a personalidade de Schubert não se confundia com as de outras grandes figuras da História da Música na mesma época. A sua motivação criativa não visava o circuito comercial, tão pouco a posteridade. Buscava apreender com aqueles seus antecessores e ensaiar um estilo próprio.
Os tradicionais quatro andamentos desta sinfonia demonstram uma construção muito laboriosa, bastante além de um mero exercício de aprendizagem. Surpreende pela duração, cerca de meia hora, e pela concepção ousada dos encadeamentos harmónicos. Mas não espanta que se reconheçam influências dos modelos clássicos. Desde logo, abre com uma introdução reminiscente do início da Sinfonia N.º 39 de Mozart. Prossegue com um Allegro que se precipita-se num tema semelhante ao da abertura do bailado As Criaturas de Prometeu, de Beethoven. Já o segundo andamento é um conjunto de cinco variações sobre um tema, lembrando a Sinfonia Surpresa de Haydn. O ritmo algo frenético do Minueto também se aproxima da tempestuosidade beethoveniana, a qual se reforça no andamento seguinte, com grande vivacidade melódica e o pulsar persistente de um único motivo rítmico.
Apesar de a influência de Beethoven se fazer notar bastante mais nesta sinfonia no que na anterior, cabe salientar a graça e a leveza das melodias de Schubert, sempre mais próximas do Lied do que das árias de ópera. Significa isto que a sua personalidade não se confundia com as de outras grandes figuras da História da Música na mesma época. A sua motivação criativa não visava o circuito comercial, tão pouco a posteridade. Buscava aprender com aqueles seus antecessores e ensaiar um estilo próprio. O génio de Schubert poderia não ser original, mas era absolutamente inconfundível.
Rui Campos Leitão