Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

A Primeira Sinfonia de Beethoven

Da Primeira Sinfonia de Beethoven ressaltam duas ambiguidades. Por um lado, distingue-se um respeito devoto pelas matrizes clássicas da sinfonia, mas «perturbadas» por rasgos criativos inusitados. Por outro, revela-se uma faceta da personalidade do compositor bastante mais comedida do que aquela que lhe é vulgarmente associada – impetuosa e excessiva. Estas dicotomias resultam de ser uma obra charneira que permite vislumbrar a essência da transição do período clássico para o período romântico. É também um gesto de afirmação por parte de um músico que estava consciente de estar a desflorar um novo capítulo da sua própria carreira.

**

Estreada em 1800, a Primeira Sinfonia de Ludwig van Beethoven despedia-se do século XVIII com reverência, mas deixava bem claro que daí em diante tudo seria diferente em matéria de música sinfónica. É certo que não se compara com o arrebatamento da Eroica ou da Quinta Sinfonia, mas a justaposição da tensão dramática e do equilíbrio formal já anunciavam a postura revolucionária que Beethoven assumiria poucos anos mais tarde. É nesta confluência que se distingue a singularidade da sua proposta. Com ela, o compositor demonstra tudo quanto aprendeu nas lições que manteve com Haydn em 1792 e 1793, e sobretudo do estudo cuidado das sinfonias do mestre. A sinfonia de Beethoven não poderia ter sido escrita por Haydn, mas Beethoven nunca o poderia ter feito se com aquele não tivesse aprendido a organizar uma composição ao longo do tempo, a explorar o recurso dos contrastes expressivos, a aventurar-se por entre desenhos harmónicos de maior alcance e, mais importante, a nunca sacrificar a unidade global da obra.

Apesar de tudo isto, Beethoven recusava ser apelidado de «discípulo de Haydn», e alimentou deliberadamente uma pretensa rivalidade. De certa maneira, esta sinfonia pode ser entendida como um desafio, um manifesto da sua «diferença». Confrontava o público da época com uma ênfase expressiva que se afastava definitivamente do mero intuito de dispor bem num contexto de ilustrada convivência. Os primeiros compassos são disso bom exemplo, com acordes dissonantes que aguardam desfecho, protelando a afirmação da tonalidade principal, Dó Maior. Sabemos hoje que Haydn e Mozart, já antes, haviam dado passos até mais ousados nesse sentido, mas em sinfonias que não eram então das mais tocadas. A ambição e a irreverência de Beethoven, aliadas às novas oportunidades de um contexto social e político que dispensava a disciplina complacente de quem serve um só patrono, permitiam-lhe ir mais além.

Se é verdade que a Primeira Sinfonia é a mais conservadora de todas as sinfonias de Beethoven, também é certo que foi com ela que o compositor anunciou «ao que vinha»: para desbravar caminhos à luz de uma consciência profundamente individual, mas sempre desperta para o mundo em seu torno e projetando-se na posteridade.

 

Rui Campos Leitão