Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

A Paixão Instrumental de Martin

A par de Arthur Honegger, Frank Martin é um dos compositores suíços que alcançaram maior prestígio no século passado. Entre as obras que lhe são mais conhecidas, contam-se a Pequena Sinfonia Concertante e a oratória Golgotha. Filho de um pastor calvinista, a fé trespassou frequentemente a sua produção artística. Faleceu com oitenta e quatro anos de idade, em 1974. No ano anterior tinha estreado duas obras de grande fôlego e que traduzem essa influência – o Requiem e o Políptico.

**

Chamamos Políptico a um retábulo composto por vários painéis que se juntam num todo coerente. Aconteceu que Frank Martin se encontrava na cidade italiana de Siena quando já tinha recebido o convite para compor um concerto para violino e orquestra de cordas. Teve aí a oportunidade de contemplar, no Museo dell’Opera Metropolitana del Duomo, Maestà, o célebre políptico pintado por Duccio di Buoninsegna no início do século XIV. Impressionaram-no particularmente os painéis que se acham na parte posterior do retábulo, composto por pequenas pinturas que ilustram a Paixão e Morte de Jesus e que ali quase duplicam o número das catorze estações. Elegeu então seis dessas imagens como estímulo criativo de um concerto com seis andamentos para violino e duas pequenas orquestras de cordas, as quais se dispõem em palco ligeiramente afastadas uma da outra. A estreia teve lugar em 9 de setembro de 1973 com a Orquestra de Câmara de Zurique dirigida pelo maestro Edmond de Stoutz. Celebrava-se o 25.º aniversário do Conselho Internacional de Música, cujo presidente era então o próprio solista, Yehudi Menuhin.

Trata-se, portanto, de música inspirada em pinturas do final da Idade Média que reportam àquelas passagens dos textos bíblicos. Porém, o compositor não se propôs fazer uma pequena suíte de poemas sinfónicos, como se fossem retratos sonoros de uma narrativa. Em vez disso, procurou transpor para música as emoções que essas imagens despertaram em si mesmo. O critério de escolha poderá ter sido a natureza contrastante das mesmas, de maneira a proporcionar a diversidade entre os andamentos. Assim, o «diálogo» entre o violino e as duas orquestras assume vários matizes. No primeiro andamento é relativamente evidente a associação do violino à figura de Jesus, ao passo que as orquestras espelham o burburinho da multidão. No segundo a voz de Jesus também ressoa na serenidade do solista. Já no terceiro, o protagonismo é confiado às orquestras, com o dinamismo próprio de uma cena teatral bem agitada. Muitos também reconhecem no quarto andamento afinidades com a Chaconne para violino de J. S. Bach. O quinto tem um estilo expressionista que poderíamos associar sem dificuldade a um filme de terror. Por fim, parece ouvir-se o cântico de uma congregação de fiéis e o fraseio celeste do solista.

O próprio compositor deixou-nos algumas palavras sobre aquilo que sentiu diante de cada uma das pinturas e também sobre o que pretendeu expressar através da música. Podemos hoje juntá-las à nossa escuta de maneira a acrescentar leituras e alusões que a partitura não representa.

 

I. Imagem do Domingo de Ramos

«Na Imagem do Domingo de Ramos, vi uma multidão ruidosa que avançava para assistir à entrada de Jesus em Jerusalém, rodeando-o e aclamando-o; senti também a presença de Cristo, cuja consciência superior se eleva acima do tumulto e sabe quão humana e frágil é a glória momentânea. Confiei a sua expressão ao violino solo.»

 

II. Imagem do Cenáculo

«Na Imagem do Cenáculo temos o despedida que Cristo dirige aos Seus discípulos, as perguntas angustiadas que estes lhe colocam, e a amabilidade das Suas respostas.»

 

III. Imagem de Judas

«A Imagem de Judas retrata um ser cheio de angústia, com o coração atormentado; é a imagem, acima de tudo, de uma alma aflita pela obsessão e pelo desespero.»

 

IV. Imagem de Getsémani

«A Imagem de Getsémani é a angústia da solidão, a oração fervorosa ‘Pai, afasta de mim esse cálice!’ e, por fim, a aceitação total, ‘Seja feita a Vossa vontade’.»

 

V. Imagem do Julgamento

«A Imagem do Julgamento mostra o pleno horror de uma multidão desenfreada, a alegria sádica na contemplação do sofrimento.»

 

VI. Imagem da Glorificação

«E depois, é o caminho da Cruz. Tendo chegado a este ponto, senti que não havia outro final possível que não fosse a Imagem da Glorificação.»

 

 

 

Rui Campos Leitão