Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

A Ousadia de Brahms

Durante muitos anos, Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX. Hoje, porém, a influência do seu legado é por de mais evidente. No domínio orquestral (formato Concerto inclusive) seguiu a peugada de Beethoven. Ainda assim, ousou uma escrita emocionalmente mais intensa e com durações maiores, o que contrariava as expectativas de um público que à época não estaria disposto a tanto. Talvez por essa razão, o seu Concerto para Piano N.º 1, a primeira obra que compôs com orquestra, só vingou alguns após a estreia que teve lugar em Hanover, em 1858.

**

Johannes Brahms tinha vinte e cinco anos de idade quando completou este primeiro concerto para piano. Já antes, tinha revelado o seu talento em várias sonatas para piano e canções, as quais também mereceram, em 1853, apreciações favoráveis de Schumann, de quem era próximo. Porém, esta foi a sua primeira composição para orquestra – lembra-nos isto que Brahms só fez estrear a primeira sinfonia já com quarenta e três anos. O concerto surgiu a partir de uma sonata para dois pianos esboçada em 1854, quando Schumann tinha acabado de ser internado num hospício, na sequência de uma tentativa de suicídio. Este episódio fatídico enredou a criação da obra. O dramatismo inicial corresponde-lhe plenamente, podendo ser entendido como uma expressão de lamento. Sendo verdade, o ânimo introspectivo do segundo andamento, que foi trabalhado já depois da morte de Schumann, em 1856, poderá dever-se à evocação da memória do malogrado músico. Em alternativa, uma leitura contrastante prefere entendê-lo como um «gentil retrato» de Clara Schumann, por quem Brahms sentia um profundo afeto.

A estreia, em 1859, com o próprio compositor ao piano, foi recebida bastante friamente; em parte, em resultado das expectativas do público da época face a um concerto com solista. Inesperadamente, este concerto confiava um papel muito destacado à orquestra, relegando muitas vezes o piano para um papel de sustentação rítmica e harmónica. Aos trémulos nos tímpanos, aos densos uníssonos nas cordas, à intervenção criteriosa das madeiras, sobretudo no andamento central, juntavam-se inúmeros outros efeitos orquestrais que marcavam a diferença. Tal ousadia faria de Brahms um dos maiores sinfonistas de sempre.

 

Rui Campos Leitão