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A Musa e o Poeta

A Musa e o Poeta de Camille Saint-Saëns paira num ambiente nostálgico, sobre melodias que sugerem discursos (ou diálogos) na primeira pessoa, como se acompanhada por palavras que se escondem entre os sons. De certo modo, é um poema sinfónico, com um único andamento evocativo de referências extramusicais. Musicalmente, contrapõe o conjunto orquestral e duas partes solísticas, o violino e violoncelo.

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Datada de 1909, e numa altura em que Stravinsky, Schoenberg e Debussy encetavam novos caminhos para a História da Música, A Musa e o Poeta reflete um romantismo tardio. Com efeito, o compositor francês mantinha-se no final da vida arredado de maiores experimentalismos. Era uma personalidade respeitada por toda a Europa. A sua música continuava a ser apreciada e ele sabia gozar o conforto dessa situação.

Esta obra foi escrita durante uma das suas várias viagens pelo norte de África, neste caso ao Egipto. Como o próprio compositor afirmou, trata-se de uma conversa entre dois solistas, e não o confronto típico de um concerto. O título sugere a representação programática de um diálogo entre um poeta e a sua musa inspiradora. Há quem arrisque que o poeta seria o violoncelo, e o violino a musa. Porém, há também que lembrar que o título foi colocado na partitura pela mão do editor Jacques Durand após a conclusão da obra, com o intuito de lhe acrescentar valor comercial. 

A partitura atravessa três secções. Primeiro os solistas trocam ideias melódicas. A conversa inflama-se progressivamente rumo a uma curta cadência no violino. A partir desse momento assiste-se a uma secção intermédia de maior agitação e instabilidade. Depois, reformulam-se as ideias principais, com a mesma ponderação contemplativa do início. Antes do final, ouve-se uma coda cheia de exaltação.

 

Rui Campos Leitão