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A Juventude de Poulenc

A maior parte da música que Francis Poulenc escreveu para orquestra destinou-se a bailados e peças teatrais, para lá de partituras corais com orquestra, concertos e arranjos diversos. A Sinfonietta (1947) é a sua única obra sinfónica. Ainda assim, são quatro andamentos que mais se parecem com música cénica do que com uma Sinfonia. Chamou-lhe Sinfonietta, diminutivo de Sinfonia.

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Desde início de 1924, quando os Ballets Russes estrearam o bailado Les Biches em Monte Carlo, Francis Poulenc tornou-se num nome com prestígio internacional. O músico parisiense passou então a receber encomendas bem remuneradas, tais como aquela que em 1947 lhe chegou da BBC e que esteve na origem da sua única composição expressamente pensada para orquestra. O desafio sugeria como modelo aproximado a Sinfonia Clássica de Prokofiev – uma pequena sinfonia para pequena orquestra, portanto. Era intenção celebrar o primeiro aniversário de um programa radiofónico da BBC, em setembro de 1947. Porém, o processo criativo revelou-se demorado e só seria estreada no ano seguinte. Em agosto daquele ano, já havia composto os primeiros três andamentos. Dois deles até tinham sido orquestrados, mas o último demoraria um ano mais até estar concluído.

Segundo o próprio, a Sinfonietta recuperou boa parte dos temas melódicos de um quarteto de cordas que destruiu pela mesma altura em virtude de não se sentir satisfeito com o resultado. Poulenc não era um compositor propenso aos formatos clássicos. Esta obra demonstra isso bem. Na vez da coesão estrutural, vagueia por mosaicos sonoros contrastantes, estilos diversos que se sucedem de maneira aparentemente aleatória. É como se houvesse a intenção deliberada de um exercício disperso. Talvez seja essa a razão pela qual nunca vingou na lista do repertório mais frequentemente tocado pelas orquestras. Está repleta de melodias belíssimas, por vezes com grande vivacidade rítmica, e uma orquestração convincente. Mas a estrutura entrecortada, a aparente desorganização, exige uma disposição particular do ouvinte. A explicação passará, portanto, pela imprevisibilidade na relação entre o que aconteceu antes e o que vem depois. Tudo indica que o pensamento musical de Poulenc não seria compatível com ideias clássicas como Desenvolvimento Temático ou Planeamento Formal. Em vez disso, focava-se no instante, no aqui e no agora. Os efeitos sonoros são brilhantes e incisivos, mas não favorecem a linearidade discursiva. Aparentemente, Poulenc não trabalhava a memória nem concebia a ideia de posteridade como desígnio artístico. Aproximava-se dos cinquenta anos de idade, mas continuava a viver o presente com a mesma entrega com que na juventude viveu os Loucos Anos Vinte.

 

Rui Campos Leitão