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A Fantasia das Percussões

Há cem anos, os instrumentos de percussão tinham um estatuto muito inferior ao que gozam nos nossos dias; sobretudo no mundo ocidental. Por si sós, cingiam-se às paradas militares ou a apontamentos cívicos de caráter festivo. No seio da orquestra, quando assumiam proeminência, serviam quase sempre a ilustração de referências extramusicais, tais como arquétipos marciais ou evocações pretensamente exóticas conotadas com culturas distantes. Porém, ao longo do século XX, o paradigma alterou-se, a ponto de se poder afirmar que as percussões protagonizaram uma das principais revoluções do panorama musical moderno. Hoje, é um universo sonoro amplamente reconhecido em todas as suas valências. O concerto Dreamachine de Michael Daugherty mostra-nos porquê. Composta em 2014, coloca as percussões à frente da orquestra para prestar homenagem à imaginação daqueles que sonham mundos novos. Começa por Leonardo da Vinci e termina com Mr. Spock – esse mesmo da série de culto Caminho das Estrelas.

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São várias as razões que têm vindo a impulsionar a «emancipação» das percussões. Destaca-se a emergência das expressões musicais de cunho popular, que confiam à componente rítmica uma função identitária essencial. Também uma maior propensão para a experimentação sonora por parte dos compositores, já que a percussão permanecia como uma das últimas fronteiras por explorar no domínio da música instrumental. Aqueles que buscavam novas sonoridades reconheceram na expressão tímbrica destes instrumentos um veículo privilegiado para propor alternativas à tradição romântica. Por outro lado, houve diversos estímulos que determinaram esta crescente «abertura de espírito», tais como a avocação de uma ancestralidade idealizada ou a correlação com a agitação própria das paisagens urbanas dos novos tempos. Assim nasceram obras que anunciavam o futuro, tais como História do Soldado de Igor Stravinsky (1918), Kammermusik N.º 3 de Paul Hindemith (1925), Ionisation de Edgard Varèse (1931) ou Música para Cordas, Percussão e Celesta de Béla Bartók (1936). Em todas elas, assiste-se a uma rutura com padrões rítmicos lineares e a um maior compromisso com a ação performativa.

Depois da Segunda Grande Guerra, as escolas de formação de percussionistas proliferaram, primeiro com a inclusão nos seus currículos de instrumentos de altura definida – tais como a marimba e o vibrafone – e depois todos os outros (e são muitos!). Hoje em dia, temos muitas obras para percussões que se impõe nos repertórios das salas de concerto. É o caso de Dreamachine do norte‑americano Michael Daugherty. Natural do Iowa (1954), tem feito carreira no Michigan enquanto compositor, pianista e pedagogo. Na sua música cruzam-se as tradições populares com o romantismo e o pós‑modernismo. São trinta minutos divididos em quatro andamentos que se distinguem pelo protagonismo confiado a diferentes instrumentos. No primeiro, a marimba evoca as máquinas voadoras de Leonardo da Vinci; nas variações de Rube Goldberg, cartunista que desenhava humorísticamente máquinas rebuscadas que «resolviam» funções simples, pandeiretas, maracas e flexatones, entre outros pequenos instrumentos de mão, entrelaçam-se com a orquestra; no terceiro andamento, um vibrafone retrata com atmosferas impressionistas uma enguia elétrica que vagueia em águas profundas. Por fim, A Forja de Vulcano, onde os sons da caixa irrompem com ritmos inspirados no deus romano e na figura de Mr. Spock, o cientista da série televisiva que encantou Portugal nos anos 1970 e 1980.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Cartoon de Rube Goldberg (1921) | Fonte: Picryl