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Nino Rota em 1972 | Fonte: Wikimedia Commons

09/10/2020

A Arte Invisível de Nino Rota


A música para cinema é uma arte invisível. É tanto mais eficaz quanto passe despercebida. Mas no caso da música dos filmes de Federico Fellini, muito para lá de uma banda sonora que informa e condiciona expectativas dissimuladamente, ela impregna simultaneamente o «discurso» do realizador e a experiência do espectador. Não se reduz, portanto, à mera representação ou à afetação emocional. Envolve-se com a escuridão da sala nessa tal sensação imersiva que tanto valorizamos. O maestro é Nino Rota.

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Federico Fellini nasceu há cem anos. Ao longo de uma carreira que se estendeu durante quase meio século, assinou como realizador mais de duas dezenas de filmes, tais como o «blockbuster» La dolce vita (1960), ou La strada (1954) e Amarcord (1973), estes dois premiados com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. O seu nome ressoa, porém, muito além da Sétima Arte. Ainda hoje, é ícone de um imaginário fantasioso italiano que se reconhece à escala global. Na dimensão particular da música, distingue-se a singular parceria que manteve com o seu amigo e colaborador Nino Rota, autor da música que se ouve em todos os filmes desde O Sheik Branco, em 1952, ao Ensaio de Orquestra, este estreado em dezembro de 1978, poucos meses antes da morte do compositor. Por essa altura, Fellini afirmou numa entrevista que admirava o trabalho de Rota por este ter conseguido abdicar de uma ideia que muitos outros compositores partilham, a de que a música tem de se fazer notar nos filmes. Dizia que, num filme, a música desempenha, de certo modo, um papel marginal e secundário, e só em raros momentos deve assumir protagonismo. A sua principal função seria a de apoiar tudo aquilo que se passa na tela.

É possível que Nino Rota não subscrevesse integralmente esta formulação, mas é inquestionável que a sua música se tornou indissociável do selo cinematográfico de Fellini. O músico tornou-se internacionalmente conhecido com o sucesso de La Strada, cuja banda sonora vendeu muitos discos, em separado. Ainda assim, ouvir a música que Nino Rota compôs para os filmes de Fellini representa muitos mais do que assistir a «clipes sem imagem». Acima de tudo, era um extraordinário melodista. E é precisamente isso o que se destaca nas suas colaborações cinematográficas. Sentado ao piano, improvisava com um facilidade impressionante melodias capazes de acrescentar substância dramática às personagens e aos «plateaux». O segredo estaria na forte convicção de que a sua música transcendia aquele propósito. Afinal, Nino Rota não compunha música para cinema. Em vez disso, dialogava através da música com o cinema. Para lá disso, não consentia qualquer tipo de hierarquização entre géneros musicais, e em particular entre música de concerto e música para cinema, à revelia daqueles que o desconsideraram por se dedicar a compor música que assumia deliberadamente propósitos funcionais. Ela revela-se plenamente quando se escuta por si só. As suítes orquestrais que destacam dos filmes alguns excertos que acompanham a projeção das imagens bastam-se a si mesmas. Mas nunca renegam a sua proveniência.

A música do filme Amarcord transporta-nos de imediato para a ambiência nostálgica das curiosas personagens e situações do enredo passado nos anos 1930 – não por acaso, «Amarcord» é uma palavra do dialeto da região do norte de Itália Emília-Romanha que significa «recordo-me». Já a música de La Strada, recupera a fábula poética sobre a esperança, o amor e a inocência que enreda a história trágica de Gelsomina, uma jovem que foi vendida pela própria mãe a Zampano, um artista de rua. Lembra-nos quando Gelsomina tocava tambor e trompete durante as exibições públicas, e o circo onde conheceu um desventurado equilibrista. A música de Nino Rota dá um relevo certeiro as estes personagens e as estes cenários. Em 1966, Fellini foi convidado para adaptar o filme a um bailado que subiu ao palco do La Scala de Milão. Nessa ocasião Nino Rota acrescentou música extraídas de outros filmes e peças inéditas. Por sua vez, o Concerto Soirée foi composto em 1958. É uma partitura extremamente exigente para o solista, ou não fosse o compositor um virtuoso do piano. O próprio interpretava publicamente o concerto com bastante frequência. Apesar de ser uma obra concertística, também aqui se reconhecem várias referências da música para cinema. Como exemplos, o tema melódico do terceiro andamento foi posteriormente utilizado no bailado La Strada, enquanto o quinto andamento foi recuperado em . Ao todo, são cinco andamentos para piano e orquestra que deixam claro que a música de Rota é sempre fiel a si própria, seja em palco ou nas salas de cinema.