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O Adagietto de Penderecki

O Adagietto do compositor polaco Krzysztof Penderecki emancipou-se da ópera Paraíso Perdido logo após a estreia, em 1978. No contexto original, preenche o momento de comoção e beleza que se interpõe entre o êxtase de Eva, que se deixa tentar pelo fruto da Árvore do Conhecimento, e o triste lamento de Adão. São apenas cinco minutos de música que se comparam a páginas tão célebres como o Adagio de Samuel Barber ou o Adagietto da Sinfonia N.º 5 de Gustav Mahler.

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Krzysztof Penderecki descreveu a sua segunda ópera, Paraíso Perdido, como uma Sacra Rappresentazione, fazendo alusão aos espetáculos líricos do século XVI que em Itália se baseavam em temáticas bíblicas e que evoluíram mais tarde para a Oratória. Fê-la subir à cena pela primeira vez a 29 de novembro de 1978 na Ópera Lírica de Chicago, em resultado de uma encomenda que recebera dois anos antes por parte da Organização das Celebrações do Bicentenário da Declaração de Independência dos EUA. O libreto, dividido em dois atos, é da autoria do dramaturgo inglês Christopher Fry, que por sua vez se baseou livremente no poema épico homónimo publicado em 1667 por John Milton, um dos maiores poetas do Renascimento inglês. O enredo decorre no Céu, no Inferno e na Terra, em torno da narrativa do livro de Génesis.

De maneira a expressar musicalmente a complexidade simbólica de tais cenários, e também de figuras como Santanás, Eva, Adão e Deus, Penderecki optou por associar diferentes recursos musicais a cada uma delas. O Adagietto, que entretanto se tornou autónomo nas salas de concerto, é um interlúdio orquestral que coloca em cena o êxtase delirante de Eva após comer o fruto proibido. Tem lugar entre a 5.ª e 6.ª cenas do segundo ato e transporta-nos ao Jardim do Éden para nos envolver numa dimensão sonora estática e reflexiva. Como se fosse um hino à inocência, diz-nos que não está ao alcance de quaisquer recursos teatrais a representação cénica da primeira vez que, na Humanidade, se consumou o amor.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: «Adão e Eva no Jardim do Éden» / Pintura de Johann Wenzel Peter (1745–1829) / Fonte: Wikimedia Commons