Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

A Segunda Sinfonia de Saint-Saëns

Camille Saint-Saëns completou cinco sinfonias, mas incluiu somente três no seu catálogo. Das três primeiras, consideradas obras de juventude, só publicou uma, escrita aos dezoito anos de idade. Já então mostrava uma identidade criativa própria, buscando sempre conciliar a irreverência e a solidez formal dos clássicos. A Segunda Sinfonia surgiu seis anos mais tarde, em 1859. Não se compara com a magnificência da Sinfonia com Órgão, aquela que escreveu quando já contava cinquenta e um anos e se tornou bem mais conhecida. Mas ilustra bem um dos desígnios que orientaram toda a sua carreira: compor «música para ouvir», tão-somente.

**

A partitura respeita o formato sinfónico instituído pelos clássicos. São quatro andamentos que correspondem genericamente com o arquétipo estabelecido na primeira metade do século XIX. O primeiro tem geralmente um tempo rápido; é rico em ideias e ímpeto expressivo. O segundo é lento e solene. O terceiro – nem mais! – um Scherzo, com a sua métrica ternária. O último é a secção da obra em que os compositores se permitem mais liberdades. No conjunto, Saint-Saëns apresenta uma orquestração relativamente mais modesta do que a primeira sinfonia – com menos tímpanos, menos metais e sem harpas. Também recorre à forma cíclica, técnica já anteriormente explorada por Beethoven, Schubert e Berlioz, a qual consiste em relacionar as melodias que protagonizam os diferentes andamentos. É uma obra concisa, sem excessos, mas rica em criatividade. Não deixa, por isso, de desafiar convenções, desde logo quando estrutura o primeiro andamento numa fuga a três vozes. 

Por vezes, é difícil descrever uma ideia musical. Mas aqui a tarefa é bastante facilitada. Repare-se na célula germinal deste andamento inicial. Caracteriza-se por uma sequência de intervalos de terceira; que primeiro descem e depois sobem. Basta escutar os primeiros compassos para se perceber do que estamos a falar. De início, a orquestra introduz dois acordes inusitados. Aparece então esse tal motivo que alimenta uma série de repetições e variantes. Segue-se um Adagio que introduz acalmia e contenção numa orquestração dominada pelas cordas com surdina e intervenções cirúrgicas dos sopros, confiando particular destaque ao corne inglês. Após a vitalidade rítmica do Scherzo – algo rústico –, tudo culmina num Finale efervescente. Repleto de reminiscências cíclicas dos andamentos anteriores, destaca-se pelo caráter vivo de uma tarantela. Será, porventura, uma alusão à Sinfonia Italiana de Mendelssohn, em jeito de homenagem.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Camille Saint-Saëns entre 1865 e 1875 / Fonte: BnF Gallica