«2020» é resultado da encomenda feita pelo Maestro Armando Mota para o Festival Internacional de Piano do Algarve, que todos os anos cumpre a importante missão de encomendar uma obra a um compositor português. Muito agradeço o voto de confiança e a possibilidade de ver a minha música estreada por intérpretes de tanta qualidade e talento.
A repetição, enquanto ciclo em torno de si próprio, sempre me fascinou. Esta ideia de mantra eterno, silencioso, de dimensão insondável, que subjaz à existência de tudo e todos, foi magistralmente (d)escrita por Platão, Aristóteles, Nietzsche, Schopenhauer ou Jorge Luis Borges e de alguma forma está sempre presente na música que componho, nas minhas fotografias ou nos meus filmes.
«2020» foi composto durante o primeiro confinamento e concebido sobre um conceito simples: uma viagem de comboio com lugar à janela. O início da obra evoca, de forma absolutamente narrativa, a memória que tenho de ver o sol a nascer no rio Tejo a partir de um lugar à janela no primeiro Alfa Pendular do dia, em direção ao Porto. As primeiras e tímidas tonalidades da aurora dão progressivamente lugar à exuberância das cores do novo dia, e com este a consagração do movimento perpétuo do planeta e das nossas vidas. Procuro, em «2020», evocar este conceito, tanto no grande gesto (arquitetura A/B/A que uso nos 3 andamentos), como no pequeno gesto (os ostinati recorrentes ou a figuração rítmica obsessiva e circular). O terceiro andamento rompe bruscamente o caráter dos precedentes com uma energia e virtuosismo que, estou certo, me ajudaram a mitigar a angústia da clausura na fase final do confinamento.
Agradeço a honra de poder contar com o talento de intérpretes como o pianista António Rosado, o maestro Adrian Leaper e a Orquestra Metropolitana de Lisboa.
«2020» é uma edição e publicação da AVA Musical Editions.
João Vasco / Lisboa, 2022