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Uma Criação Fortuita

O Concerto para Oboé de Richard Strauss é repertório lapidar deste instrumento. Foi composto no final da Segunda Guerra Mundial, quando o músico já contava cerca de oitenta anos de idade. Surpreende-nos com um registo neoclássico e bucólico, como se o autor da Elektra recuasse ao início da carreira, sessenta anos antes. Porém, apesar da aparente simplicidade, é uma obra que raramente temos a oportunidade de escutar ao vivo, o que em grande parte se deve às dificuldades que coloca ao intérprete solista. A sua criação nasceu do encontro fortuito com um oboísta norte-americano.

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Até à eclosão da Segunda Grande Guerra, John de Lancie tocava oboé na Orquestra Sinfónica de Pittsburgh (Pensilvânia) – viria poucos anos mais tarde a integrar a Orquestra de Philadelphia. Durante o conflito, foi destacado para servir o seu país no quadro dos Serviços de Inteligência instalados em território alemão. Em abril de 1945, os Aliados tomaram sem resistência a região dos Alpes da Baviera, onde coincidentemente Strauss se instalara para fugir às agruras da guerra, mais precisamente em Garmisch-Partenkirchen. Sabendo da sua presença, vários militares melómanos fizeram questão de o conhecer pessoalmente, entre os quais Lancie. Ingenuamente, este perguntou certa vez ao compositor decano se alguma vez tinha escrito um concerto para oboé, recebendo como resposta um rotundo não. Passados poucos meses, todavia, teve conhecimento através da imprensa que a pergunta não caíra em «saco roto». Strauss nunca tinha pensado nessa possibilidade até então, mas a ideia não lhe saiu da cabeça e fez publicar a partitura em menos de um ano. Pelo meio, mudou-se para a Suíça, onde o Concerto para Oboé e Pequena Orquestra foi estreado, em fevereiro de 1946. Dois anos mais tarde, o próprio introduziu pequenas alterações, resultando a versão revista que conhecemos hoje. Entre várias, a alteração mais substancial foi o prolongamento da Coda, no andamento final.

Juntamente com Metamorphosen (1945) e as Quatro Últimas Canções (1948) – entre outras obras –, o Concerto para Oboé pertence à derradeira fase da vida de Richard Strauss, cujos últimos anos foram marcados pelo desapontamento. Apesar de ter sido nomeado diretor da Reichsmusikkammer em 1933, caiu sob suspeita do Regime Nazi dois anos mais tarde, tendo a partir daí a sua carreira entrado em declínio. Numa altura em que ainda não eram conhecidas as consequências mais hediondas da guerra, ter-lhe-á também sido particularmente desoladora a destruição de teatros de ópera como os de Munique, Dresden e Viena, salas onde conquistara tanto sucesso. E apesar de tudo isto, o concerto desenrola-se com uma disposição relativamente afável. Anteriormente, os excertos para oboé solo mais relevantes do seu catálogo encontravam-se nos poemas sinfónicos Dom Quixote (1897) e Uma Vida de Herói (1898), na suíte orquestral Le Bourgeois Gentilhomme (1917) e na ópera O Cavaleiro da Rosa (1910). No Concerto para Oboé e Pequena Orquestra esses recursos são levados mais além. São quatro andamentos tocados sem interrupção e que decorrem num percurso harmónico relativamente simples, eminentemente tonal, sempre baseados no material temático apresentado de início. Por seu turno, o desempenho do solista é bastante menos descontraído. Tem de tocar quase ininterruptamente, com raras oportunidades para recuperar o esforço despendido ou, inclusivamente, respirar. O domínio técnico do instrumento tem de ser exímio para que tudo pareça fácil, como se pretende.

 

Rui Campos Leitão