Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

“Mahler é fascinante: tinha dentro de si toda a complexidade e contradição da humanidade”

A Canção da Terra é a prova da “fascinante honestidade” de Gustav Mahler em relação à música. Esta é a opinião do premiado maestro francês Sylvain Gasançon, que sobe ao palco do CCB este domingo às 17h00 com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Conversámos com Gasançon sobre o programa do fim de semana e sobre o génio do compositor austríaco.

Afirmou há alguns anos, numa entrevista, que Mahler é um dos seus compositores favoritos. Porquê?
Mudei muito em relação à música de Mahler. Não é que eu tenha deixado de gostar. Continuo verdadeiramente apaixonado! Mas parece-me muito mais difícil de apreender e interpretar.

Ainda hoje?
Sim, ainda hoje. Muitos jovens maestros, e eu fui um deles, acham que Mahler é tão evidente e linear que fala por si mesmo. Ora, isso não é tão verdade como me parecia antigamente. Cheguei a um ponto da minha vida que me obrigou a reconsiderar e colocar tudo em perspetiva.

Mas o que mudou na sua avaliação da música de Mahler?
Há que dizer isto: Mahler não é o que parece ser. Ele é muito mais complexo, perigoso de interpretar sem cair na tentação do ego do músico. Dito isso, ele é um génio absoluto. O que mais gosto na sua expressão artística é a sua completa e fascinante honestidade em relação à música.

Como assim?
Repare, não há nada que ele não nos conte sobre os seus medos, tristezas, alegrias e assim por diante, através da música. É realmente cativante quando se toca a sua música. É possível sentir a humanidade plena deste homem que tinha dentro de si toda a complexidade, a contradição de toda a humanidade, pelo menos a parte ocidental dela. Ele é uma espécie de lição de vida. E verdadeiramente humano.

Existem vários arranjos das seis canções que constituem “A Canção da Terra”. A primeira de todas foi feita pelo próprio Gustav Mahler, numa redução para voz e piano. Há também o famoso arranjo inacabado de Arnold Schoenberg. Neste concerto ouviremos um arranjo para pequena orquestra feito em 2004 pelo maestro e compositor Glen Cortese. Que questões surgem ao interpretar uma partitura que é, em si, uma interpretação de outra obra?
Acho que as versões menores permitem-nos sentir outros pormenores dessa mesma música. É muito mais em si uma peça íntima do que às vezes pensamos que é, uma enorme quantidade de música, notas e instrumentos. Este Lied von der Erde em particular, como muitas vezes acontece com Mahler, parece telúrico à primeira vista. Certamente, às vezes, é. É o caso de “Abschieds” (“A Despedida”). Talvez seja muito mais íntimo, próximo do coração, como alguém que nos diz belas palavras ao ouvido: não é um grito, é uma declaração doce, triste e melancólica de algo que não pode ser definido em palavras.

Assim sendo, como se simplifica essa dificuldades?
A complexidade de interpretar uma partitura destas numa versão de pequena orquestra é precisamente obter o tal aspeto às vezes telúrico da música através de um número reduzido de instrumentos. Apesar do que eu disse anteriormente, é claro que há um momento de clímax na música que exige um som grande e intenso. Mas no que diz respeito ao seu lado íntimo, esta versão reduzida permite-nos expressar outras cambiantes da música de Mahler. Portanto, um desafio misturado com uma visão renovada da música: é ao mesmo tempo emocionante e exigente, como sempre é o nosso trabalho!

Na sua leitura, essa obra aproxima-se mais de um ciclo de canções ou de uma sinfonia?
Vejo muito mais A Canção da Terra como uma sinfonia, por causa da unidade da música, dos temas e do facto de Mahler sempre usar a linguagem sinfónica, se podemos dizer assim – é sempre perigoso permitirmo-nos chamar a música de linguagem no senso comum ou usual; mas isso seria outra discussão. Acho que o aspeto sinfónico de Mahler tem a ver com a etimologia da própria palavra sinfonia: um conjunto de sons.

Mas Mahler é isso mesmo…
Exatamente. Mahler está cheio de sons: sons da natureza, sons da sua infância, sons do seu próprio coração a bater e assim por diante. Mahler é a definição de som: ele expressa o que é impossível de expressar através da música. Melhor do que através de palavras. Ele próprio é uma espécie de homem sinfónico. Ele é uma expressão de sons porque nada melhor que som, música, pode expressar os seus sentimentos.

Portanto, o que me está a querer dizer é que há uma unidade nesta obra?
Sim, e é por isso que acho que é mais uma sinfonia do que um ciclo de canções. Isso significaria que cada canção exprimiria um sentimento diferente. Mas não é isso que acontece. Há uma única emoção que amarra todas as músicas, toda essa sinfonia: o som da vida.