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Entrevista. As artes de Pedro Proença ao lado da música da Metropolitana

Pedro Proença

Nascido em Angola em 1962, o artista plástico Pedro Proença será Artista Associado da Metropolitana na temporada 2018-2019. Pintor, ilustrador, escritor e também compositor, Pedro Proença será o autor da imagem principal de cada um dos concertos da Metropolitana, a partir de setembro.

Terminou o curso de Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa em 1986, já participou em dezenas de exposições individuais em vários países do mundo e assinou diversos livros de ensaio, poesia, ficção e tipografia.

Em entrevista ao site da Metropolitana conta como recebeu este convite e desvenda um pouco mais de si e da sua caminhada profissional.

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Como viu este convite da Metropolitana para ser o Artista Associado na próxima temporada?

Com surpresa e alegria.  Sempre esperei o inesperado. Uma parte significativa da minha vida foi dedicada à música. Em adolescente ia sozinho às temporadas da Gulbenkian, aos Encontros de Música Contemporânea e mais tarde de Música Antiga. Também sou um executante e, além disso, há alguns anos dediquei-me furiosamente à composição. Acontece que tenho dois filhos pianistas e viver, falar e pensar a música fazem parte de meu dia a dia.

O que representa para si, e para a sua carreira, esta parceria com a música da Metropolitana?

O regressar às salas de concerto, das quais tenho estado um pouco arredado, de um modo intenso, menos circunstancial. Confesso que alimento expectativas quanto a um certo envolvimento com o ambiente da Metropolitana. E também estou convicto de que esta parceria irá ter um efeito no meu trabalho, não apenas como ouvinte, mas na comicheira da criação. Há muitas ideias que me surgem ligadas a estruturas ou efeitos musicais. Não tarda vêm ter comigo.

Estas obras que disponibilizou à Metropolitana para fazerem parte da temporada têm uma coerência e ligação entre si…

A coerência entre elas sou eu, apesar das minhas incoerências. Foi diverso o material escolhido, e uma boa parte dele constituído expressamente para este efeito. Posso dizer que o que os une é precisamente um modo combinatório, muito semelhante à musica, de variar formas, montar, remontar, etc. Sou muito consciente dos aspetos formais e produzo sobretudo de uma forma serial ou processual. Aquilo que seriam os conteúdos é um processo paralelo que torna uma série de referências e temas aderentes. A maioria das vezes surgem espontaneamente.

Tem uma carreira longa, entre a pintura, a escrita e a ilustração, com obra publicada. Quando olha para trás, o que vê?

Acumulação, diversidade, complexidade, e claro, uma satisfação muito grande, que é em parte narcísica. Escrevo muitas vezes contra a ideia de obra para a posteridade, mas acho interessante a obra ir-nos fazendo alguma companhia ao longo da vida. Ir às gavetas e descobrir uma quantidade de coisas de que me tinha totalmente esquecido. Ou saber de uma obra que vai vivendo a sua vida com outros, interagindo diariamente com eles. Nunca mudo um desenho. É muito raro alterar uma pintura (mas acontece!). Já a minha experiência literária é a de um total work in progress, de uma metamorfose radical e permanente. Como tenho criado outras coisas como tipografia, coisas de design gráfico, música e uma o outra incursões na cenografia e no cinema, tenho a sensações de deixar por aí um mundinho jubilante. É um mundo de delírio intelectual (com aspas), infantil (polimórfico perverso), cómico, polémico e julgo que, às vezes, contemplativo e ternurento.

A sensibilidade para as artes começou logo em criança. Recorde-me esses primeiros passos.

Creio que antes da sensibilidade para as artes, o que me foi marcante no meu ambiente foi a sensibilidade para a sensibilidade. Sendo as artes domínios onde se condensa a sensibilidade, a aderência a estas foi-se fazendo naturalmente. Em criança tinha momentos de quase transe em que dizia poesia continuamente. Adorava fazer revistas e livros. E claro, houve um período em que fazia banda desenhada, entre 1972 e 1980. Mudava com frequência de estilo e era muito descontínuo. Tenho essa vontade de me deixar influenciar ainda e de ir vivendo o capricho dos interesses. Entretanto tinha começado a escrever e a tocar música e ia absorvendo ambas. Quando comecei a pintar, o que mais me espantou foi o carácter paradisíaco da cor. É uma experiência maravilhosa, haja ou não ansiedade e angústias pelo meio. Há uma euforia latente na pintura que associo à caça e à imersão alucinante na cor.

A partir de setembro, todos os concertos da Metropolitana terão obra sua a acompanhar a divulgação. Como vê esta ideia de juntar a música e outras artes neste contexto?

Assim como um texto pode contaminar a experiência musical, as imagens também nos abrem para uma forma mais variada e fecunda de escuta, e vice versa. Quem já fez montagem sonora em filmes sabe perfeitamente que esta provoca emoções e narrativas que são tão importantes quanto a montagem de imagens. Acho extraordinário terem-me posto nesta situação privilegiada.

© Pedro Proença