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Entrevista a Pavel Gomziakov. ​A história do violoncelo do século XVIII que dava um filme

©Marcelo Albuquerque | Metropolitana

Estava escrito nas estrelas. Nascido em Tchaikovsky, nos Montes Urais, Rússia, Pavel Gomziakov só poderia fazer carreira na música clássica. A culpa, porém, foi da mãe, professora e maestrina, que o puxou para o violoncelo. Demorou dois anos a tentar, até que conseguiu. “A minha mãe empurrou-me e estou feliz por isso”, dirá nesta entrevista. Artista Associado da Metropolitana ao longo desta temporada, o violoncelista russo, que tem nacionalidade portuguesa, junta-se este sábado aos músicos da Orquestra Metropolitana de Lisboa para um concerto sem maestro no Teatro Thalia, em Lisboa.

Que surpresas vai apresentar neste concerto? O que é que os espectadores vão poder ver neste sábado?

É o programa que sempre quis fazer. Muito positivo, muito alegre. Acho que os espectadores vão gostar muito. O concerto está dividido em duas partes. A primeira é dedicada à música italiana, com obras de Rossini e Boccherini, e uma segunda metade do concerto dedicada à música de Haydn. Este é um concerto sem maestro… Sim, é uma das particularidades deste programa. Quando foi discutida a minha colaboração com a Metropolitana para esta temporada, apostou-se na diversidade, e um dos concertos previstos era este sem maestro. Vou estar com os colegas Ana Pereira e Nuno Abreu e com uma pequena orquestra. Vai funcionar muito bem, embora nunca tenha feito nada assim. É fora do comum.

Com a sua experiência, e apesar de nunca ter feito nada assim, sente um certo nervoso miudinho?

É sempre uma primeira vez, claro, e portanto, não há um histórico, mas estamos a falar de músicos com muita experiência.

O Pavel assume a direção musical do concerto e vai tocar o seu violoncelo. Um famoso violoncelo, que tem uma história que quase dava um filme…

[risos] Sim, é verdade. É um violoncelo histórico de 1703, construído antes de Bach. É uma peça fantástica com um som extraordinário. Um dos seus primeiros donos foi um amigo de Beethoven, o violoncelista e compositor Bernhard Romberg.

E como é que um violoncelo com esse peso histórico vem parar às suas mãos?

É como disse, só acontece nos filmes [risos]. Em 2010 fui fazer os meus primeiros concertos aos Estados Unidos, com a Sinfónica de Chicago, e foi aí que tomei contacto com o violoncelo, que, entretanto, foi vendido. Dois anos depois, encontrei-me com o novo dono do violoncelo. Ele chegou ao meu hotel e disse-me que tocar naquele violoncelo era muito difícil e que mo vendia. Mas eu não tinha condições para o comprar e ele acabou por ser vendido a uma senhora em Hong Kong.

E pensou que nunca mais o veria…

Pois pensei, mas mesmo assim ele voltou para mim. Ela percebeu que o filho não queria mesmo ser violoncelista. E foi procurar um pouco a história do violoncelo, acabou por encontrar o meu nome e conhecer o interesse que eu tinha manifestado antes. Entrou em contacto com o meu agente em França. Eu nem queria acreditar quando abri o meu email e tinha lá a mensagem do meu agente a dizer que a senhora queria falar comigo.

©Marcelo Albuquerque | Metropolitana

E finalmente comprou o violoncelo.

Não [risos]. Ela não queria desfazer-se dele, não queria vender, mas queria emprestar a alguém que merecesse, que o estimasse, que entendesse a sua importância histórica. Portanto, fez-me um empréstimo a longo prazo. Estou a tocar com ele desde dezembro de 2017, muito feliz, e claro, muito agradecido. É com este violoncelo que vou tocar no sábado.

Nesta temporada, o Pavel é Artista Associado da Metropolitana. Como tem sido esta experiência?

Muito boa. Este vai ser, infelizmente, o meu último projeto da temporada enquanto Artista Associado. Foi uma proposta do maestro Pedro Amaral e estou muito agradecido. Como disse, os quatro projetos que fiz foram todos eles diferentes: um com a Orquestra Académica, dois com a Orquestra Metropolitana de Lisboa (um projeto internacional e um de um autor português) e este sem maestro. Nesta semana acaba tudo. Até à próxima vez.

Sim, porque o Pavel Gomziakov tem colaborado com a Metropolitana noutros momentos, embora não com este estatuto de Artista Associado.

Sim, há quase dez anos. Creio que foi em 2008 que toquei pela primeira vez com a Metropolitana.

Como tem sido, ao longo dos anos, esse diálogo com os músicos da Metropolitana?

Muito bom, muito interessante, e cada vez mais fácil. Em primeiro lugar, porque já nos conhecemos todos muito bem, apesar de alguns músicos que foram entrando na orquestra. Mas é diferente: no início olhamos todos uns para os outros, sem saber o que esperar um dos outros. Hoje já não é assim, já nos conhecemos musical e pessoalmente. Já há um respeito e confiança mútuos, que são essenciais para que tudo corra bem. Em segundo lugar, porque a OML tem vindo a crescer muito a nível profissional e musical.

Nota isso?

Noto, noto. Há um amadurecimento, um trabalho muito importante que tem sido feito na formação e que vai dando os seus frutos. O trabalho tem sido muito bem feito a nível de preparação.

Um dos trabalhos que fez este ano foi com a Orquestra Académica Metropolitana, músicos ainda estudantes e jovens. É necessariamente diferente do que tocar com profissionais.

É muito diferente, sim. Mas foi muito simpático. Claro que tivemos o dobro dos ensaios. Mas o resultado foi estimulante e muito, muito bom. E creio que para eles também. Era aí que eu ia chegar.

A Metropolitana, além da orquestra profissional, tem três escolas. Como avalia este modelo de ensino que junta a teoria à componente prática, em que os alunos têm a possibilidade de tocar com músicos profissionais?

É fantástico. É uma excelente oportunidade, pois os miúdos podem tocar juntos dos professores e ir crescendo no ambiente de prática. Há outros modelos formativos em todo o mundo, também eles eficazes, claro, mas creio que esta fórmula resulta muito bem, porque é visível o crescimento dos estudantes.

©Marcelo albuquerque | Metropolitana

Está em Portugal há muitos anos, quase uma década…

Sim, creio que são nove anos, já lhe perdi a conta. Vivi em Portugal, em Paris, em Londres, depois voltei para Portugal. Em definitivo estou aqui há três anos.

Além de falar já um português muito compreensível, o que é que já tem de português?

[gargalhada] Não sei se sou capaz de lhe responder a isso, mas uma coisa é certa: tenho uma excelente relação com Portugal. E estou muito feliz por ser português. Não sei se sou mais russo ou português.

Tem dupla nacionalidade?

Sim. Desde que mudei em definitivo, obtive a nacionalidade portuguesa e estou muito feliz com isso. Até porque consegui manter a russa.

O que o atrai em Lisboa?

A primeira vez que aqui entrei, adorei logo. Acho que é a última capital europeia que ainda tem vida humana. Deixe-me ver se lhe consigo explicar isto: adoro Londres, Paris é uma cidade muito bonita, mas está a desaparecer o convívio familiar entre pessoas, que ainda conseguimos encontrar em Lisboa. Aqui há uma dimensão humana única. Nasci numa cidade muito pequena, que sempre foi muito familiar. Por isso, ter encontrado em Lisboa esta tranquilidade é muito reconfortante.

Tocou com Maria João Pires em várias salas, gravaram um disco nomeado para um Grammy. Que recordações tem desse trabalho?

Muito boas recordações. A Maria João convidou-me para um dueto, que se prolongou durante vários anos. Demos vários recitais em todo o mundo e gravámos um disco, como disse. A experiência de estar ao lado de uma artista com o nível de Maria João Pires é fantástica. Aprendi muita coisa com ela.

Consegue dizer-me o quê?

Consigo, claro. Aprendi a ter uma certa liberdade musical e emocional. Ela tem uma sinceridade na sua música. Uma simplicidade. E é isso que a sua música transmite: uma certa verdade a quem a ouve. E isso tem a ver com a abertura pessoal às emoções, à fuga da rigidez absoluta. A música tem de ter essa liberdade poética e emocional. Isso aprendi com Maria João Pires.

Começou a tocar com que idade?

Nove anos. O que para um país como a Rússia é muito tarde. E eu não queria.

Não? Conte-me.

Não [risos]. A minha mãe é maestrina de um coro e é professora. A música sempre esteve presente na minha casa, cresci com ela. A minha irmã mais velha toca piano. Portanto, aprender a tocar piano estava fora de hipótese. Dividir um instrumento entre irmãos nunca dá bom resultado: ou não querem tocar, ou querem tocar ao mesmo tempo. A minha mãe falou-me do violoncelo, até porque tinha uma amiga que era muito boa professora de violoncelo. Isso foi por volta dos seis anos. Eu não queria, não estava para ali voltado, mas ela convenceu-me. Demorou algum tempo, mas conseguiu. A minha mãe empurrou-me e estou feliz por isso.