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Vista panorâmica da cidade de Berlim ca. de 1750 | Fonte: Wikimedia Commons

01/02/2020

Wilhelm Friedemann Bach


Comparativamente com Carl Philipp Emanuel e Johann Christian, o legado de Wilhelm Friedemann Bach tem sido relativamente negligenciado. Apesar da sua qualidade e relevância, na música dos seus irmãos é mais evidente a nova prática expressiva que apontava aos estilos clássico e romântico. Para lá disso, a biografia que se lhe conhece contém alguns aspetos enigmáticos. Ao longo da vida, não serviu sempre uma corte ou a Igreja, o que faz de si um precursor. Porém, é no seu estilo de escrita que reconhecemos maior afinidade com o virtuosismo instrumental e com as técnicas contrapontísticas do «estilo antigo», o estilo do pai Bach.

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Wilhelm Friedemann Bach nasceu em 1710 em Weimar, onde seu pai trabalhou durante quase uma década. Era o segundo filho do primeiro casamento de Johann Sebastian e, aparentemente, o mais «indomável» de todos os irmãos. Em 1717 a família mudou-se para Cöthen, e em 1723 para Leipzig. Foi nesta última cidade que recebeu grande parte da sua instrução. Já por sua conta, mudou-se em 1726 para uma outra pequena cidade da Saxónia, Merseburg, para estudar com J. Graun. Regressado a Leipzig, no ano seguinte, foi professor de C. Nichelmann, músico que se juntaria mais tarde a Graun, em Berlim. Em 1733 conseguiu um lugar de organista em Dresden, na igreja de Santa Sofia. Terá sido aí, já no início da década de 1740, que compôs a Sinfonia em Ré Menor F. 65. Era então prática corrente introduzir peças instrumentais a meio da celebração da missa. Seria este o caso, um andamento único que agrega um prelúdio e uma fuga onde se destacam duas flautas sobre as cordas e o baixo contínuo. O primeiro é solene e desenrola-se numa figuração melódica cuidadosamente trabalhada, ao passo que a Fuga se precipita num tempo rápido sobre o mesmo tema melódico que se escutou no Adagio precedente.

Em 1746 o músico mudou-se para Halle, onde assumiu o lugar de organista e diretor musical da igreja daquela cidade – já pertença da Prússia. Vinte anos depois abandonou o cargo, e deparamos-nos então com um hiato de quase uma década em que pouco se sabe acerca da sua biografia. Ter-se-á, eventualmente, apresentado como cravista em várias cortes europeias e como organista em concertos públicos. Em 1774 instalou-se em Berlim, por conta própria, em busca de novas oportunidade profissionais, apesar dos 64 anos de idade. Aí permaneceu na década seguinte, até ao final da vida. 

Para trás, deixava um trajeto profissional que se distinguiu sobretudo quando passou pela cidade de Dresden, onde gozou de grande prestígio como organista. As funções de Wilhelm Friedemann ter-se-ão também estendido para lá da igreja, em particular como cravista. Porém, enquanto compositor, não teve o mesmo sucesso, talvez porque uma das principais características da sua música seja a dificuldade técnica, o que não se ajustava ao mercado de edição de partituras da época, que era fundamentalmente procurado por músicos amadores. As poucas obras que dele nos chegaram, em particular as sonatas para flauta, assim como as sonatas e concertos para cravo, são extremamente difíceis de tocar. É disso exemplo o Concerto F. 46, datado de 1745, um dos mais célebres dos sete que conhecemos. Curiosamente, tem dois cravos como solistas, na vez de um, à frente das trompetes, das trompas, dos tímpanos e das cordas. Destacam-se, ainda, as repetições rítmicas e motívicas obstinadas, para lá de um estilo de escrita próximo da improvisação, por vezes rapsódico e em torno da mesma ideia. Ainda assim, mantém-se bastante próximo do estilo de Johann Sebastian, apesar de não demonstrar o mesmo interesse pela disciplina do contraponto, e também de ser mais contido no que respeita às variações harmónicas. O seu concerto confronta-se aqui com o mais conhecido dos concertos para cravo de J. S. Bach, o BWV 1052, onde se desenham figurações sofisticadas em ambas as mãos. Esta obra data de 1734 e baseia o primeiro e segundo andamentos na sinfonia introdutória e no coro da Cantata N.º 146 (BWV 146, Wir müssen durch viel Trübsal), a qual, por sua vez, resultara da adaptação de um concerto para violino entretanto perdido. A partitura tem início com um poderoso ritornello em uníssono, sobre um motivo que prevalece ao longo de todo o andamento. As partes a solo assemelham-se frequentemente a uma tocata, proporcionando a exibição do virtuosismo do intérprete. Wilhelm Friedemann deveria apreciá-lo bastante.

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