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Uma Sinfonia Francesa

Quando se fala de Sinfonia, os primeiros nomes que nos ocorrem pertencem a compositores alemães e austríacos (tais como Beethoven, Brahms, Bruckner ou Mahler), e não franceses. Com efeito, no século XIX, a música orquestral sinfónica não era igualmente apreciada em França. Ainda assim, houve exceções notáveis, tais como a Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz ou a Sinfonia em Ré Menor de César Franck.

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Na segunda metade do século XIX, não querendo um músico enveredar pela carreira de intérprete virtuoso, a melhor maneira que tinha para se tornar célebre era compondo óperas. Durante o Segundo Império Francês (1852-1870), Paris tinha-se tornado um centro de modas que confiava grande importância ao entretenimento público. No que respeita à música, a Grand Ópera satisfazia esse gosto, não deixando grande margem para a música de câmara ou para a música sinfónica, os géneros para os quais César Franck era mais dotado. Nestes domínios, fazia-se acompanhar de compositores como Camille Saint-Saëns e Vincent d’Indy.

Um dos contributos mais importantes para o «renascimento» da música orquestral francesa foi a fundação em 1871 de uma instituição, a Société Nationale de Musique, que tinha como objetivo promover a música dos autores franceses alinhados com a tradição musical mais clássica. Porém, numa época em que os ideais nacionalistas fervilhavam na Europa (países como a Grécia, a Bélgica, a Itália e, sobretudo, a Alemanha eram muito recentes), defender a música orquestral «pura» gerava equívocos. Por um lado, protegia os compositores franceses, o que tinha grande aceitação popular. Por outro, assumia como modelos os músicos germânicos do passado, o que já não era tão conveniente, pois a França acabava de sofrer uma derrota humilhante diante dos alemães na Guerra Franco-Prussiana, provocando a dissolução do regime e a instauração da Terceira República.

Anos mais tarde, quando em fevereiro de 1888 César Franck fez estrear a Sinfonia em Ré Menor no Conservatório de Paris, os sentimentos nacionalistas ainda estavam exaltados e terão impedido que a aceitação da obra fosse consensual. Acrescia que César Franck tinha assumido a presidência da Société Nationale de Musique em 1886, e que uma das alterações introduzidas foi a aceitação de compositores de diferentes nacionalidades. Apesar da aprovação dos músicos mais próximos, o sentimento anti-germânico que na época se sentia em França terá motivado reações menos positivas na audiência.

Por sinal, ainda hoje esta é uma obra controversa que divide o público. Por detrás de uma aparência clássica, esconde nuances e subtilezas que não satisfazem as mesmas expectativas de uma sinfonia convencional. Por tudo isto, e apesar de César Franck ser belga, se a música tiver porventura nacionalidade, pode-se sugerir que esta seja uma sinfonia francesa, de pleno direito.

 

Rui Campos Leitão

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