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1.ª Página do Manuscrito da Sinfonia N.º 84 de J. Haydn | Fonte: Bnf Gallica

15/02/2021

Uma Sinfonia de Paris


Quando lembramos a importância de Joseph Haydn no seu tempo, logo vêm à ideia as célebres oratórias A Criação e As Estações, de 1798 e 1801. Também as célebres doze Sinfonias de Londres, escritas poucos anos antes. Já as seis Sinfonias de Paris são menos vezes tocadas. Cabe, porém, lembrar que o sucesso destas, em meados da década de 1780, foi determinante para a internacionalização da carreira do músico austríaco. A Sinfonia N.º 84 é uma delas. Chamam-lhe por vezes In nomine Domini porque o seu início se parece com uma melodia de cantochão que pronuncia essas palavras – Em nome do Senhor.

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As seis Sinfonias de Paris resultaram de uma encomenda cujo valor era simbolicamente prestigiante… e financeiramente irrecusável. Foi paga pelo Conde d’Ogny e destinou-se à Orquestra dos Concerts de la Loge Olympique, uma sociedade de concertos por subscrição que coexistiu durante algum tempo com a Concert Spirituel. A série de concertos da Loge Olympique iniciou-se em 1781 e tinha como pretensão preencher o lugar deixado vago pela recentemente extinta sociedade Concert des Amateurs, em cujos programas a música de Haydn era habitual. Dava assim continuidade a uma tradição que tivera início em 1771, quando o Stabat Mater foi estreado com sucesso na Concert Spirituel. Abria caminho para seis novas sinfonias que vingaram prontamente.

Assim, Paris contribuiu muito para que Haydn se tornasse no maior sinfonista daquela época. As sinfonias dos compositores de Mannheim, tais como Carl Stamitz, tinham uma presença muito relevante. Mas as sinfonias de Haydn foram sendo tocadas cada vez com maior frequência, em particular as Sinfonias de Paris, que foram estreadas em 1786 e 1787 e logo se difundiram por toda a Europa. Culminaram um processo de crescente popularidade e projetaram definitivamente a figura de Haydn numa dimensão internacional. É de assinalar que, para lá de Paris, Haydn conseguiu vender os direitos de publicação para Viena, Londres e Berlim. Não menos importante, o formato Sinfonia afirmava-se como um género de referência.

Em particular, a vitalidade que emana desta sinfonia N.º 84 não combina com a turbulência cívica que se fazia sentir nas ruas da capital francesa e que passados dois anos culminariam numa revolução sem precedentes históricos. Sobretudo, reflete a oportunidade que foi oferecida ao compositor para trabalhar com uma orquestra de dimensão bastante maior do que aquela que dispunha em Esterházy. Inicia com uma introdução solene, quase reverencial. Abandona-se depois em sonoridades «deste mundo». O andamento lento consiste numa sequência de variações sobre um tema, o que permite acompanhar com clareza os requintes da orquestração ao longo do tempo. Já o Minueto, resulta de uma combinação sublime entre o encanto bucólico e os maneirismo dos salões da nobreza. Por fim, irrompe um Finale com entrelaçados contrapontísticos complexos em que, sobre uma melodia de caráter rústico, Haydn estampa todo o seu «métier».

 

Rui Campos Leitão

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