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Monumento a Bruckner colocado no Parque da Cidade de Viena | Fonte: Wikimedia Commons

05/12/2021

Uma Oração Arrebatadora


Música e Espiritualidade – esta é uma combinação antiga na História da Humanidade. Seja por genuína devoção ou por reverência formal, a música sempre foi um meio privilegiado na relação com a transcendência divina. Católico fervoroso, Anton Bruckner entendia assim a criação artística, de tal maneira que a fé trespassava no seu trabalho, como na vida. Dedicou a sua derradeira sinfonia «Ao Bom Senhor». Por tudo isto, e ainda que não a tenha concluído, torna-se inevitável buscarmos na grandiosidade desta obra o recato da oração.

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A música de Bruckner não se confunde com qualquer outra. O compositor austríaco foi contemporâneo de Brahms, de Tchaikovsky e de Dvořák, «herdeiro» de Beethoven e de Wagner, percursor de Mahler… mas, acima de tudo, foi uma figura singular. No que respeita à sua produção sinfónica, uma das características mais paradoxais é o modo como combina a imponência sonora e formal com uma escrita minuciosa. Esta dualidade compromete a sua apreensão imediata. Convida-nos a abandonar o conforto de expectativas satisfeitas e a vaguear por territórios desconhecidos. Por vezes, parece interromper o fluxo discursivo, criando uma sensação de estranheza sobre aquilo que vem de seguida. Tudo se expande sem limites, ao ponto de transformar a própria noção do tempo. Neste sentido, é curioso pensar que, apesar de ter a consciência de que a vida se aproximava do fim, Bruckner não demonstrava ter pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Desde que em agosto de 1887 começou a pensar na Sinfonia N.º 9, e ao longo dos nove anos que ainda lhe restaram, deixou-se tomar por uma procrastinação que só permitiu completar três dos quatro andamentos. Interrompeu inúmeras vezes o projeto para fazer revisões profundas de sinfonias anteriores – designadamente a 1.ª, a 3.ª e a 8.ª – e também compôs obras avulsas, tais como o Salmo 150 ou a cantata Helgoland. O 3.º andamento terá sido concluído em novembro de 1894. Ainda assim, encontrava-se a rever essas mesmas páginas do manuscrito a 11 de outubro de 1896, dia em que morreu. Do Finale, só nos chegaram esboços que não permitem uma reconstituição convincente, apesar dos esforços já empreendidos por muitos musicólogos.

Existem, portanto, inúmeras maneiras de encarar esta sinfonia, desde a condição de obra inacabada até à mais sublime epifania. Como exemplo, destaca-se nesta sinfonia a tonalidade de Ré Menor. É difícil acreditar na coincidência de também a Sinfonia N.º 9 de Beethoven, o Requiem de Mozart e a Arte da Fuga de Bach – todas obras derradeiras – se apresentarem na mesma tonalidade. A evocação de Beethoven é certamente a mais evidente, pelo modo como Bruckner se propôs reinventar o alcance do formato sinfonia, pelo semelhança do Scherzo – heróico, violento –, pelo uso desmedido dos sopros metais. Esperar-se-ia do último andamento uma «mensagem de esperança», tal como na Sinfonia Coral.

Bruckner tinha a consciência de que esta seria a sua última grande composição, pelo que lhe destinou uma dimensão verdadeiramente monumental. Deixou-nos uma hora de música que se alimenta de ambiguidades permanentes, geradoras de uma tensão que parece nunca dar tréguas. Os 567 compassos do primeiro andamento demonstram um planeamento simétrico, irrepreensível do ponto de vista estrutural, com uma duração praticamente igual na exposição dos temas e na consequente reexposição. Ao longo do «chamamento» solene dos sopros e dos tímpanos, os trémulos das cordas anunciam desde logo o papel que estas vão ter ao longo da partitura, com uma escrita extenuante para os intérpretes. Já o segundo andamento parece revelar alguns traços do que seria o Finale. Juntam-se aqui algumas das páginas mais brutais de todo o legado de Bruckner. A expectativa criada pelos sopros madeiras e pelas cordas, que de início tocam em pizzicato, alterna com a obstinação rítmica do maciço orquestral. Aguardamos sempre maior lirismo nas secções intermédias, à boa maneira de um Trio de estilo clássico. Porém estas só acrescentam inquietação. Tudo se parece com uma dança macabra, sem meios termos. Resta-nos um Adagio, onde se vislumbra a influência da ópera Parsifal. Também Wagner explorou exaustivamente os metais e as percussões no seio da orquestra, para lá de estender a componente harmónica até ao limite da tonalidade. Os violinos dão início a este andamento, desta vez em jeito suplicante, rumo a um estado de êxtase, a uma revelação gloriosa que, ainda assim, não resulta pacificadora, pois permanece dissonante. Para muitos, este Adagio representa a libertação do mundo terreno. Conduz-nos a um silêncio do tamanho da eternidade.

 

Rui Campos Leitão