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Uma Noite no Monte Calvo

Em virtude de uma vida atormentada pelo alcoolismo e por problemas de saúde mental, muitas das partituras de Mussorgsky não se achavam em condições de serem tocadas aquando da sua morte – contava apenas 42 anos de idade. Amigos seus «poliram» as suas obras postumamente. Destaca-se o contributo de Rimsky-Korsakov, que reorquestrou alguns desses manuscritos. O exemplo mais conhecido é a suíte Quadros de uma Exposição. Mas o poema sinfónico Uma Noite no Monte Calvo nada lhe fica a dever em matéria de fantasia e encanto.

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Em 1860 Mussorgsky foi convidado para compor a música de uma peça teatral que se passava num Sabbat de bruxas. O projeto não vingou, mas terá sido essa a origem de Uma Noite no Monte Calvo. Já em 1866, ouviu a Dança dos Mortos de Franz Liszt, um poema sinfónico para piano e orquestra. Retomou então a ideia com a acrescentada inspiração de um conto de Nikolai Godol intitulado Noite de São João (1831). Essa narrativa decorre perto da cidade de Kyiv (Ucrânia), numa colina rochosa sem vegetação (por isso Monte Calvo). Na tradição eslava, este local é lendariamente associado aos rituais pagãos da noite de 23 para 24 de junho. Daí provém o imaginário do Sabbat, a Missa Negra celebrada por bruxas, criaturas demoníacas e espíritos fantasmagóricos que se juntam num cerimonial de danças frenéticas, sacrifícios, orgias que invoca Chernobog (o Diabo). Almas penadas voam como bolas de fogo montadas em vassouras.

A partitura orquestral foi concluída por Mussorgsky pouco antes da Noite de São João de 1867. Mas essa versão só seria publicada em 1968 – ainda hoje, é muito raramente tocada. O próprio compositor reaproveitou-a para outros projetos, designadamente a ópera-ballet Mlada e a ópera inacabada Feira de Sorochintsy. Estava absolutamente convicto de que essas páginas continham uma estética genuinamente russa, livre das influências germânicas que então representavam a alternativa estilística provinda do ocidente. Foi, porém, a orquestração de Rimsky-Korsakov que a celebrizou, ainda que não fosse absolutamente fiel ao original. Omitia cerca de dois minutos de música e apresentava um final inteiramente novo. A mestria de Korsakov teve um impacto profundo sobretudo em matéria de orquestração. As cordas desenham efeito sinuosos. As flautas vincam gestos incisivos. Os metais irrompem com imponência. Revelam-se assim os murmúrios subterrâneos de vozes sobrenaturais, as aparições dos espíritos das trevas, o desfile e a glorificação de Satanás, a celebração da Missa Negra. O soar distante dos sinos de uma igreja assinala o fim da festa das bruxas. É o nascer de um novo dia.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Vista geral do santuário pagão no Monte Lysa (Lysa Hora), em Kiev / Fonte. Wikimedia Commons