Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo
Enrico Caruso à direita no papel de Nemorino (Berlim / 1917) | Fonte: Wikimedia Commons

23/01/2020

Uma Lágrima Furtiva


À semelhança de Bellini, o lirismo e as melodias de Donizetti comovem os sentimentos do ouvinte. Por outro lado, a leveza e espirituosidade do seu estilo lembram Rossini, muito embora sem equivalente sentido de humor. Num terceiro aspeto, a construção expressiva das suas óperas é pioneira da dramaturgia musical de Verdi. Mas, sobre tudo isto, o compositor de Bergamo é uma referência incontornável do bel canto italiano. Em L’elisir d’amore, o exemplo mais notável disso mesmo é «Una furtiva lagrima», a ária que o tenor Enrico Caruso eternizou em 1902 numa gravação que abriu caminho a outras não menos célebres de cantores como Luciano Pavarotti e Plácido Domingo.

 

 

A tradição do bel canto teve origem no século XVIII com os castrati, cujo virtuosismo e técnica vocal foi assimilada pelos métodos do ensino do canto em Itália. Os nomes mais sonantes a este respeito são os dos compositores Gioacchino Rossini, Vincenzo Bellini e Gaetano Donizetti, muito embora as árias dos dois últimos se tenham destacado, particularmente nos palcos de ópera das décadas de 1820 a 1840 e, mais tarde, já no século XX, com o impulso da indústria discográfica. Nesse âmbito, Donizetti compôs cerca de setenta óperas, entre elas monumentos do repertório lírico como Anna Bolena (1830), L’elisir d’amore (1832), Lucia di Lammermoor (1835) e Don Pasquale (1843). 

As melodias do bel canto distinguem-se pelo fraseio fluente e pela agilidade característica do género coloratura. Exigem do cantor um pleno domínio das tessituras grave e aguda, para lá de um controle irrepreensível da respiração. As ornamentações transbordam no virtuosismo vocal e a beleza tímbrica torna-se protagonista por intermédio de um estilo legato encantatório e notas que se prolongam no aparatoso messa di voce (quando o cantor nos conduz com destreza desde o pianíssimo até ao forte e regressa depois ao ponto de partida). Nesta altura, a voz passou a assumir o estatuto técnico e expressivo dos instrumentos que então eram tocados por virtuosos de fama internacional, tais como Paganini, Liszt e tantos outros.

Nas óperas de Donizetti, as árias tornaram-se assim determinantes para caracterizar as personagens. Tal acontece em L’elisir d’amore na ária para a voz de baixo de Dulcamara «Udite, udite, o rustici», na qual um registo simultaneamente cómico e virtuoso cativa simpatia por uma personagem sem escrúpulos. Mas o exemplo mais célebre desta mesma ópera, enquanto momento de expressão profunda de sentimento, é «Una furtiva lagrima», uma das árias que mais bem ilustram o estilo do bel canto italiano. Ouve-se na cena 8 do 2.º Ato e marca um ponto de viragem no enredo. É o clímax dramático que antecede o desencadear de toda a ação.

Artigos Relacionados

O Elixir do Amor

O enredo escrito por Felici Romani para a ópera «L’elisir d’amore» com música de Gaetano Donizetti inspira-se na poção mágica de Tristão e Isolda. Porém, em vez da tragédia, envereda pela comédia romântica na exaltação do amor verdadeiro. Saber Mais