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Um Verdadeiro Achado

Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

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Pela certeza que se tem, Haydn escreveu dois concertos para violoncelo e orquestra: um em Dó Maior, datado da primeira metade da década de 1760, e outro em Ré Maior, de 1783. Poderá ainda existir um terceiro cuja partitura se perdeu, e conhecem-se outros dois que lhe são erradamente atribuídos nalgumas publicações. Cerca de vinte anos separam, portanto, a composição daquelas duas obras. A mais recente é consensualmente apreciada como exemplo do estilo clássico aplicado ao formato Concerto. Já a primeira, vem juntar-se a outros concertos raros – para violino, trompa e cravo – que permitem «visitar» a fase inicial da carreira do músico austríaco. Não evidencia a concisão técnica, a congruência  temática e a disposição dialética da construção do discurso que o tornaram numa das figuras mais influentes da Histórica da Música. Permite, no entanto, conhecer os recursos técnicos e artísticos dos quais partiu.

Joseph Haydn passou a servir o Príncipe de Eszterháza em 1761. Pouco tempo mais tarde juntaram-se-lhe vários músicos de Viena por si recomendados. Terá sido para esses instrumentistas que compôs concertos que proporcionavam a demonstração das suas capacidades diante do patrono e seus convidados. O violoncelista Joseph Weigl terá assim estreado este concerto na condição de solista, ainda antes da construção do monumental palacete junto do Lago de Neusiedl, e numa altura em que a orquestra da corte reunia apenas uma dúzia de músicos contratados ad hoc. Invulgar na época, incluía duas trompas e dois oboés que intervinham, fundamentalmente, como reforço dos tuttis orquestrais, e só esporadicamente com linhas independentes. Com uma pretensão virtuosística manifesta, este concerto ainda espelha o modelo dos concertos grossos barrocos. Desvela, todavia, a forma sonata monotemática em todos os andamentos, sinal de um instinto inovador cujo tempo de gestação chegara ao fim.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica