Apesar de não ter melodias que encantam o ouvido, o Concerto para Violoncelo de Frederick Delius pode apresentar-se como «pintura sonora» de um cenário idílico que persiste na memória. Com efeito, os primeiros traços terão tido origem numa manhã de primavera solarenga, com um temperatura amena reconfortante, entre jacintos, rosas Gloire de Dijon e outras flores silvestres.
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Frederick Delius nasceu em 1862 na pequena cidade inglesa de Bradford, no seio de uma família de comerciantes alemães. Mas viveu grande parte da vida em França, primeiro em Paris, depois em Fontainebleau. Por esta razão, e ainda que este Concerto para Violoncelo tenha sido composto no seu país natal, não disfarça uma influência muito vincada da estética musical francesa. Desde logo, na vez do confronto entre solista e orquestra, o qual exploraria o conflito dramático e o virtuosismo técnico das cadenzas, funde ambas as partes numa disposição impressionista, quase declamativa. Não se trata, portanto, de uma obra de apreensão imediata. Sem melodias opulentas, e na sequência de uma longa introdução do solista, dispõe-se num andamento único que se assemelha a uma rapsódia.
Todas as obras para violoncelo de Delius foram pensadas para Beatrice Harrison, uma violoncelista que conheceu em 1914 quando esta tocou o Duplo Concerto de Brahms na companhia de uma sua irmã violinista. Foi nessa ocasião que decidiu compor uma obra para o mesmo formato e uma sonata para violoncelo que é hoje repertório incontornável no percurso de qualquer violoncelista profissional. Quando o Duplo Concerto foi estreado, em fevereiro de 1920, o músico logo começou a pensar neste Concerto para Violoncelo e Orquestra. As primeiras ideias tiveram origem no cenário dos jardins da quinta da própria família Harrison, poucos quilómetros a sudeste de Londres. O compositor passou aí alguns dias no período da Páscoa daquele ano.
Curiosamente, a obra acabaria por ser estreada em Viena pelo violoncelista russo Alexandre Barjansky em janeiro de 1923. Quando finalmente Beatrice teve a oportunidade de tocar a obra, no mês de julho seguinte, descreveu-a da seguinte maneira: «A orquestração é muito agradável e subtil. O concerto começa cheio de virilidade e alegria, prosseguindo com um andamento lento que, pela beleza pura do som da orquestra, será certamente insuperável no âmbito da música moderna. Já perto do final da obra, um eco de lamento parece agourar a cegueira que o esperava. Será que ele ter-se-á apercebido de que toda aquela profusão de cores que o extasiavam no jardim se tornaria passado pouco tempo numa mera lembrança?» Com efeito, este foi a última partitura que Delius escreveu com a própria mão, em virtude da sífilis que daí em diante o incapacitou.
Rui Campos Leitão