Tzigane é uma rapsódia concertante que foi estreada em abril de 1924 em Londres, na versão original para violino e piano. A adaptação para violino e orquestra, realizada pelo próprio compositor, Maurice Ravel, seria apresentada em Paris poucos meses mais tarde. Em ambas as ocasiões, a parte de violino foi interpretada pela violinista húngara Jelly d’Aranyi, sobrinha-neta de Joseph Joachim, o célebre violinista e colaborador de Brahms.
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Tzigane de Maurice Ravel é uma das peças mais impressionantes do repertório para violino. É exemplo do culto pelo exotismo que ainda se sentia nas primeiras décadas do século passado, no caso baseando-se em melodias e ritmos característicos da música tradicional das comunidades ciganas centro-europeias. É curioso que o músico francês se tenha interessado pela cultura cigana. A razão chama-se Jelly d’Aranyi. Tudo teve origem numa soirée musical que aconteceu na capital inglesa em 1922, quando Ravel conheceu a violinista. O compositor pediu-lhe então que tocasse algumas melodias tradicionais da Hungria e logo percebeu que poderia dali resultar uma peça de concerto. Para lá disso, teve ainda contacto com as Rapsódias Húngaras para piano de Franz Liszt, que também o ajudaram a consolidar a ideia.
Trata-se de uma composição aparentemente insólita no catálogo do compositor. Notoriamente, dá grande destaque ao aparato virtuosístico do solista. Nesse sentido, foram muitos os que fizeram a comparação pejorativa com uma simples colagem de efeitos e apontaram a ausência de qualquer vínculo afetivo entre o compositor e a obra. Há, porém, um aspeto que coincide com o seu percurso criativo, designadamente a propensão para aludir musicalmente aos mais diferentes arquétipos estilísticos e identitários – basta lembrar a Rapsódia Espanhola, Le tombeau de Couperin ou o Concerto para Piano em Sol Maior.
Neste caso era invocada a música cigana. Como principais características deste estilo de música, ressaltam alternâncias abruptas entre secções com tempo rápido e outras extremamente lentas. Por isso, Tzigane tem início com uma inesperada candenza do solista, como se fosse uma improvisação em que sobressaem passagens rápidas que percorrem diferentes tessituras, harmónicos desafiantes e cordas duplas. Genericamente, a peça divide-se em duas partes. A primeira é, portanto, protagonizada pelo violino solo, com fraseios que reportam aos artifícios de uma cultura cigana idealizada. As melodias que são aí apresentadas reaparecem adiante recriadas nas sucessivas variações que formam a segunda parte.
Rui Campos Leitão