Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo

Três Danças Fantásticas

Sergei Rachmaninov compôs as Danças Sinfónicas no derradeiro fôlego da sua carreira. Foi em 1940, depois de passar o período de verão em Long Island, perto de Nova Iorque. Pretendia estreá-las enquanto música de um bailado de Michel Fokine, mas o coreógrafo morreu em 1942. Consta, também, que teria preferido que a obra se intitulasse somente Danças. Porém, com receio de que o público pensasse tratar-se de música para ser tocada por big bands em ambientes de convívio social, acrescentou o adjetivo Sinfónicas.

**

Rachmaninov foi um músico extraordinário. Exilou-se nos EUA na sequência da Revolução Bolchevique de 1917. Antes disso, tinha sido um dos maestros e compositores mais prestigiados da Rússia Czarista. Porém, as solicitações do mercado norte-americano obrigaram-no a partir de então a enveredar quase exclusivamente pela carreira de pianista. Não deixou, todavia, de compor, sendo as principais criações deste período – o qual se estendeu até ao final da vida, em março de 1943 – a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, a Sinfonia N.º 3 e as Danças Sinfónicas. Estas últimas tiveram origem no seguimento de um festival inteiramente dedicado à sua figura pela Orquestra de Filadélfia, no estado da Pensilvânia. O sucesso da iniciativa, e consequente projeção mediática, abriram caminho à composição e à estreia desta obra, no dia 3 de janeiro de 1941. O Velho Continente achava-se nesses dias afundado nos conflitos da Segunda Grande Guerra.

De relance, e porque a partitura se compõe de três partes, as Danças Sinfónicas convidam à comparação com os andamentos de um Concerto, e até mesmo de uma Sinfonia. Porém, são efetivamente três danças, todas elas com uma estrutura ABA e uma secção central contrastante. No princípio, chamavam-se Danças Fantásticas, sendo cada uma delas alusiva a diferentes fases do dia: «meio-dia», «por do sol» e «meia-noite». Ao longo do processo criativo, o próprio compositor rasurou aqueles títulos. Ainda assim, não deixa de ser atrativo invocar imaginários poéticos por detrás de cada um dos «episódios». Será um tríptico musical em que se sucedem a manhã, a tarde e a noite? Serão três diferentes fases da vida do Homem?

A primeira dança é bastante enérgica e lembra em alguns momentos a música do bailado Romeu e Julieta de Prokofiev. Contém também reminiscências de um projeto inacabado do próprio Rachmaninov, o bailado Os Citas, ainda do período em que vivia na Rússia. Já a segunda dança tem como subtítulo «Tempo di valse», muito embora se perceba desde início – pelos acordes contundentes e pelos motivos melódicos serpeantes – que não corresponde à frivolidade dos salões oitocentistas. Por fim, a última dança afasta-se da melancolia e de alguma tristeza para anunciar uma transfiguração anímica, porventura espiritual. É curioso assinalar que a dada altura se distingue claramente a melodia de «Dies irae», o famoso hino que integra a liturgia católica dedicada aos mortos, o Requiem. No manuscrito autógrafo, o compositor escreveu por cima a palavra «Aleluia», porventura clamando redenção.

 

Rui Campos Leitão