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Piotr Ilitch Tchaikovsky em 1890 | Fonte: Wikimedia Commons

28/02/2020

Souvenir de Florence


Na senda dos sextetos de cordas de Brahms (1860 e 1866) e de Dvořák (1879), Tchaikovsky dedicou a sua derradeira composição de câmara à inusual instrumentação que junta dois violinos, duas violas e dois violoncelos. É por essa razão que, quando a ouvimos hoje tocada por uma orquestra de cordas, sobressai nitidamente a independência de cada uma das seis partes. Datada de 1890, este Op. 70 deve o seu título – Souvenir de Florence (Recordação de Florença) – à melodia que predomina no segundo andamento.

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Souvenir de Florence foi a última obra de câmara assinada por Piotr Ilitch Tchaikovsky, em cujo catálogo predomina sobretudo a escrita orquestral. A partitura resultou de um projeto que foi sendo adiado durante cerca de quatro anos, e que teve ainda de esperar outros dois para atingir a versão definitiva. O pretexto que motivou o músico russo a aventurar-se numa disposição instrumental que desconhecia em absoluto foi a sua nomeação como Membro Honorário da Sociedade de Música de Câmara de São Petersburgo, em outubro de 1886. Nessa ocasião assumiu o compromisso de dedicar uma obra à mesma instituição. Só no verão seguinte esboçou as primeiras notas, mas logo abandonou o projeto. No início de 1890 encontrou ânimo (e ideias) para prosseguir. Tal aconteceu num sítio improvável, em Florença, onde se havia recolhido para compor a ópera A Dama de Espadas. A vontade reacendeu com uma melodia que se encontra em plano destacado no segundo andamento da obra. Por sinal, e apesar da evocação explícita do título «Recordação de Florença», esta é a única relação entre a composição da obra e aquela cidade. Não se trata, portanto, do retrato pitoresco de um turista acidental em torno do Palazzo Vecchio.

De regresso à Rússia, e já instalado na sua casa de campo de Frolovskoe, próxima de Moscovo, Tchaikovsky retomou o trabalho para enfrentar aquela peculiar combinação de instrumentos. Em dezembro do mesmo ano, a obra foi interpretada pela primeira vez em São Petersburgo, numa audição privada que permitiu ao compositor decidir sobre as alterações que pretendia introduzir nos terceiro e quarto andamentos. A versão definitiva foi estreada dois anos mais tarde com grande sucesso junto do público. Para tal contribuiu a construção sólida do primeiro andamento, o depurado lirismo do segundo e o vigor rítmico de inspiração popular (nada italiana) dos restantes. A complexidade contrapontística da secção final honrava o distinção honorífica que lhe havia sido concedida pelos seus pares de São Petersburgo.

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