Tchaikovsky estreou a sua primeira sinfonia em 1868, em Moscovo. Aos 28 anos de idade, anunciava assim três influências que o acompanharam ao longo da vida: a solidez formal da tradição clássica, o voluntarismo romântico e os arquétipos de uma identidade russa idealizada. Mostrava-se também disposto a desafiar convenções estabelecidas para crescer e afirmar-se enquanto compositor. Em quatro andamentos, evocava paisagens de inverno e estados de espírito que ainda hoje despertam a nossa imaginação.
**
O início da carreira de Tchaikovsky coincidiu com uma dissensão na cultura musical russa. Surgiram então projetos pedagógicos que prosseguiam a tradição musical germânica, tais como os Conservatórios de São Petersburgo e de Moscovo fundados por Anton e Nikolai Rubinstein. Tchaikovsky frequentou o primeiro logo a partir do primeiro ano de funcionamento, entre 1862 e 1866. Foi depois docente no segundo, também desde que este abriu portas, entre 1866 e 1878. Numa linhagem estética e ideológica distinta, achava-se o designado Grupo dos Cinco, o qual reunia Mily Balakirev, Alexander Borodin, César Cui, Modest Mussorgsky e Nikolai Rimsky-Korsakov. Estes davam primazia à exaltação nacionalista e ao diletantismo, em divergência com a escola formalista. Tchaikovsky foi apanhado neste «fogo cruzado». Por um lado era aluno e beneficiava do apoio dos irmãos Rubinstein, por outro tinha relações profissionais avulsas com Balakirev e Rimsky-Korsakov. Podia recorrer a melodias e ritmos tradicionais, mas também trabalhar esses elementos com técnicas aprendidas no conservatório. Assim, não agradava plenamente nem uns nem outros – é bom exemplo a crítica devastadora feita por César Cui a esta sua primeira sinfonia. Os primeiros passos não foram, portanto, fáceis; só em 1876 veio a beneficiar do apoio mecenático de Nadezhda von Meck, e mais tarde do Czar Alexandre III. Assim se fez Tchaikovsky.
A Sinfonia N.º 1 foi pioneira, numa época em que compor sinfonias era prática inexistente na Rússia – era uma tradição do ocidente. Após o sucesso da Abertura em Fá Maior, o jovem músico pretendia afirmar-se enquanto compositor com uma obra de maior fôlego. Começou em março de 1966. Em junho já estava a orquestrar. Em agosto mostrou o esboço a Anton Rubinstein, que desaprovou. Dispersou-se então por diferentes projetos, mas no final do ano a primeira versão estava completa. Houve, todavia, que esperar até fevereiro de 1868 para ser integralmente estreada, com direção de Nikolai Rubinstein. Apesar de ter sido bem recebida, em particular o segundo andamento, só voltaria a ser tocada em público duas décadas mais tarde.
O título «Sonhos de Inverno» foi atribuído pelo próprio compositor, que também acrescentou subtítulos aos primeiros dois andamentos. Estes evocam imagens e atmosferas invernais, refletindo hipoteticamente sentimentos e paisagens que inspiraram a criação da obra. Há quem associe as telas do pintor Isaac Levitan. Mas são muitos mais aqueles que não conseguem estabelecer quaisquer relações programáticas. Ainda assim, não deixa de ser música «sugestiva». O tema rápido e sinuoso que no primeiro andamento se destaca na flauta e no fagote parece ser influenciado por Mendelssohn. Apresenta mais energia do que se esperaria do título «Sonhos de uma viagem de inverno». O segundo andamento, «Terra de sesolação, terra de brumas», é a secção mais conhecida da obra. Distingue-se uma melodia russa no oboé que lembra bailados mais tardios. O Scherzo resulta da adaptação de uma sonata para piano do próprio Tchaikovsky, sendo o Trio considerado a sua primeira grande valsa para orquestra. O último andamento arranca solene, mas logo se abandona em transformações do tema introdutório com ritmos contagiantes, culminando num final exuberante.
Tchaikovsky manteve sempre uma grande estima por esta obra. Referia-se-lhe como «pecado da minha doce juventude». Nos anos mais recentes, o maestro Oleg Caetani publicou um arranjo adaptado à dimensão de um orquestra clássica com o intuito de restituir a versão original destruída pelo próprio compositor aquando da revisão de 1874, na qual alargou o efetivo orquestral. Caetani reduziu o número de trompas, retirou os três trombones, a tuba, e mais algumas percussões. Deste modo, permite ouvir com maior transparência as soluções musicais do jovem Tchaikovsky numa obra fulcral no desenvolvimento da sua identidade criativa.
Rui Campos Leitão
Imagem: «Floresta no Inverno», Pintura a óleo de Isaac Levitan (1885) / Fonte: Wikimedia Commons