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Palácio das Tulherias | Desenho do século XVIII | Fonte Bnf Gallica

15/01/2021

Sinfonia Paris


Catorze anos passados, Wolfgang Amadeus Mozart regressou a Paris, em março de 1778. Nessa época, havia no grandioso Palácio das Tulherias duas salas de concertos. Numa delas, a Sala dos Cem Suíços, tinham lugar os concertos da lendária agremiação Concert Spirituel. Foi aí que estreou a sinfonia que ficou conhecida pelo nome da cidade. Escutando-a, nem por sombras se adivinha as adversidades que o músico enfrentava na sua vida pessoal. Era imperativo «contentar» a plateia. Assim aconteceu, e sempre com música de excelência.

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Feitas as contas, com uma vida abruptamente interrompida ao fim de trinta e cinco anos, Wolfgang Amadeus Mozart passou cerca de dez em viagem. Foi três vezes a Paris, duas delas na condição de criança prodígio. Esta era a capital de um regime monárquico extremamente poderoso, mas sacudido pela efervescência dos ideais iluministas. Por muitas razões, era paragem obrigatória para qualquer músico que buscasse melhor sorte do que a dedicação serviçal às rotinas de uma instituição religiosa ou de uma casa senhorial. Ainda assim, fosse nos teatros de ópera ou com música instrumental destinada aos favores do mecenato e a concertos por subscrição, tal era empresa arriscada, numa época em que o estatuto do profissional liberal ainda não era comum no domínio das artes.

Mozart tentou. Aos vinte e um anos de idade, partiu de Salzburgo para Munique, depois Mannheim e, por fim, Paris. Estas deslocações faziam-se em carruagens que percorriam 50 quilómetros por dia sem quaisquer condições de conforto, sobretudo quando chovia, como aconteceu nos últimos dois dias do trajeto. A mãe do músico, que o acompanhava, chegou doente e morreu passados três meses, a 3 de julho de 1778. Quinze dias antes, e entre muitas portas fechadas, Mozart tinha finalmente conseguido estrear publicamente uma sinfonia, e logo no Concerto Inaugural da Temporada Concert Spirituel. Apesar de se mostrar descontente com os ensaios, terminou por receber os maiores elogios. Afinal, seu pai havia-o aconselhado nos seguintes termos por carta: «Assumo […] que te deixarás guiar pelo gosto francês. Se conseguires aplausos e uma soma decente em dinheiro, deixa o diabo encarregar-se do resto.»

Mozart encarregou-se de tudo. Pela primeira vez, utilizou clarinetes numa sinfonia e cingiu-se a três andamentos, dispensando o habitual Minueto. Tendo à disposição uma orquestra composta por mais de cinquenta músicos, explorou deliberadamente os uníssonos orquestrais e os contrastes dinâmicos. Investiu em momentos solenes seguidos de ritmos impetuosos, quer nas linhas graves quer nos desenhos melódicos. Privilegiou o aparato sonoro em detrimento do cuidado dos fraseios, designadamente nos primeiro e último andamentos. Curiosamente, só a graciosidade e a contenção relativa do segundo andamento suscitou comentários menos positivos.

 

Rui Campos Leitão

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