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Sinfonia N.º 29 de Mozart

 

 

Tratando-se de música clássica, é por vezes difícil saber «por onde começar». Pois não é descabida a sugestão da Sinfonia N.º 29 de Wolfgang Amadeus Mozart. É certo que as últimas três sinfonias do compositor austríaco são bastante mais virtuosas e fulgurantes. Porém, esta que escreveu aos dezoito anos de idade é particularmente convidativa. Sem arrebatamentos expressivos ou cerimónias em excesso, somos todos muito bem-vindos.

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O tema melódico inicial da Sinfonia N.º 29 é surpreendente. Conciso, desde logo nos enche de expectativa através de um desenho que se repete e progride de maneira invulgar. Com aparente simplicidade, os temas entrelaçam-se numa conversação entre as vozes que nunca dá margem à acomodação do ouvinte. O segundo andamento desenvolve-se num registo bucólico do qual, além da beleza, transborda serenidade, sem passos em falso. O Minueto consegue ser rústico e espirituoso, simultaneamente. Por fim, o quarto andamento é verdadeiramente exaltante.

Esta sinfonia assinala um momento marcante no percurso criativo de Mozart. Apesar da impressionante precocidade que todos conhecem, é uma partitura que revela um significativo avanço em termos de maturidade, relativamente às vinte e oito sinfonias compostas anteriormente. Para lá da depuração técnica, sobrepõe à disposição de entretenimento uma tensão expressiva que aponta caminho às obras mais extraordinárias do seu catálogo.

Esta inflexão leva a refletir sobre o arquétipo de genialidade que surge habitualmente associado à sua figura. É que nem tudo é inato na condição de génio. O entorno é determinante para que desponte e se revele. De facto, Mozart tinha especial facilidade em aprender com a música de outros compositores que ia escutando. Neste caso, havia regressado a Salzburgo, após uma permanência de dez semanas em Viena, acompanhado de seu pai. Foi aí que ouviu as obras mais recentes de Joseph Haydn, em 1774, quando este já havia ultrapassado os quarenta anos de idade e gozava de grande prestígio. A nova sinfonia denotava essa influência, e a sua importância foi tal que se projetou num período de quatro anos em que, invulgarmente, Mozart não compôs qualquer outra sinfonia.

 

Rui Campos Leitão