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Rameau e o Barroco Francês

No contexto da música francesa da primeira metade do século XVIII, o nome de Jean-Philippe Rameau tem importância equivalente àqueles de Bach e Vivaldi. A sua música distingue-se, sobretudo, pela opulência das partes orquestrais.

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Rameau era um reputado organista e teórico da música, quando escreveu pela primeira vez música de cena. Já contava, então, cerca de cinquenta anos de idade. Teve ainda tempo, todavia, para escrever a música de mais de vinte espetáculos, de que se destacam o bailado Les Indes Galantes, a tragédie lyrique Dardanus e a comédie lyrique Platée. Porque na corte de Luís XV preferia-se espetáculos cénicos em que o canto lírico alternava com momentos dançados, fragmentando os enredos, a sua música distingue-se sobretudo pela opulência das secções orquestrais. Entre estas acham-se partituras de aparatoso efeito; sejam aberturas, curtas sinfonias ilustrativas de determinados ambientes cénicos ou números de dança. Muitos são hoje conhecidos por serem tocados frequentemente nas rádios, nas televisões e em filmes.

De particular interesse é a abertura da ópera Zaïs, que, em contexto teatral, apresenta-se como a ilustração sonora da separação dos quatro elementos (Água, Terra, Fogo e Ar) a partir do caos primitivo do universo. Em jeito de preâmbulo, pode ler-se uma passagem do texto que o escritor Thomas Raynal publicou em 1748 no jornal Nouvelles littéraires a propósito desses seis minutos de música.

«Só à medida em que o desenvolvimento acontece, a natureza nasce e se anima. Escutais então um ligeiro estremecimento, é o Zéfiro; soam as flautas, o chilrear dos pássaros; os violinos juntam-se às flautas e, através de modulações variadas, ora rápidas ora lentas, representam a ideia de uma torrente que se precipita ruidosamente e um riacho que corre lentamente, ou a separação do ar e do fogo. Depois, de repente, através de sons mais contundentes, mais audazes, a música transporta-nos pelos ares. Aí, desenham-se de uma só vez o ruído dos ventos e dos trovões, ou talvez, por intermédio de uma harmonia voluptuosa e plena de magnificência, inspira-vos o prazer do amor, tranquiliza-vos os sentidos anunciando a presença dos deuses.»

 

Rui Campos Leitão