Quiet City é uma curta peça musical para trompete, corne inglês e orquestra de cordas. Reúne excertos originalmente compostos para um espetáculo teatral homónimo que subiu à cena em 1939, em Nova Iorque. O enredo desenvolvia-se em torno dos dilemas existenciais de um homem de negócios que havia renegado o idealismo da juventude e a aspiração de ser poeta. A música de Copland «retrata» a mundividência desta personagem e oferece cenário para uma recriação bucólica da cidade.
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Enquanto projeto teatral, Quiet City não foi bem sucedido, terminando ao fim de poucas representações. Porém, Aaron Copland não permitiu que a música que compôs para o mesmo fosse, também ela, votada ao esquecimento. Prontamente, preparou uma versão de concerto a partir dessa partitura cuja instrumentação original indicava dois clarinetes (dobrados por um clarinete baixo e um saxofone), trompete e piano. Em palco, o som do trompete aparecia indicado nas próprias didascálias, reportando ao subconsciente atormentado do protagonista. A música de Copland traduzia o sentimento de solidão num espaço urbano, como se retratasse a comoção introspetiva que se esconde por detrás do bulício da cidade.
Assim, a obra renascia na versão que conhecemos hoje: para trompete, corne inglês e ensemble de cordas. São pouco menos de dez minutos de música que correspondem a diferentes momentos da peça teatral. Mas os sucessivos segmentos entrelaçam-se sem as interrupções que se esperaria de uma suíte desta natureza. Esta divide-se quase imperceptivelmente em sete episódios que percorrem impressões poéticas da cidade, a quietude da noite, as divagações nostálgicas de uma personagem intimamente perturbada e inquieta. No conjunto, formam uma estrutura simétrica que se reconhece no aproximar do fim, quando se ouve praticamente a mesma música do início.
Rui Campos Leitão