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O compositor Philippe Hurel | © S. Falcinelli

14/01/2021

Pour l’image


Philippe Hurel compôs Pour l’image em 1986 e 1987. É uma peça para catorze partes instrumentais com pouco mais de dez minutos de duração mas que se tornou determinante no trajeto criativo do compositor francês. Genericamente, propõe o exercício simultâneo de dois tipos de escuta aparentemente divergentes. O primeiro está desperto para uma experiência imersiva que responde em cada instante a uma pretensão global. O segundo acompanha a polifonia das vozes, referencia situações com o recurso da memória e relaciona-as entre si ao longo do tempo. São dois focos de atenção distintos para uma mesma imagem.

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Formado em Toulouse e em Paris, Philippe Hurel tornou-se num dos nomes mais destacados da música espectral fundada no final da década de 1970 por Gérard Grisey e Tristan Murail. A música espectral está firmemente ancorada na conceção e perceção humana do timbre. Enquanto proposta artística, consiste numa técnica de escrita que parte da análise da composição espectral dos sons para ensaiar uma síntese, uma transdução criativa por intermédio da música instrumental. A motivação decorria da necessidade de reconciliar a dimensão física do som com as técnicas de composição formalistas do pós-guerra. Resultou assim uma tendência estética muito característica, com maciços sonoros que evoluem no tempo. O ouvinte é convidado a descobrir essa organicidade, a imergir na envolvente sonora sem distanciamentos, a divagar num estado presente. De certo modo, experimenta o efeito ilusório da aproximação e afastamento da obra, mas sem nunca sair do lugar. Não há melodias nem acompanhamentos. Só transformações sonoras que invadem gradual e inexoravelmente o seu campo de escuta.

Existe um paradoxo, porém. Se nos dispusermos a uma discriminação dos eventos, e se estes forem percebidos isoladamente, tudo parece aleatório. Terá sido essa inquietação que levou Hurel a propor uma escrita que confiava a «focagem» e a «desfocagem» ao critério do ouvinte. Nesse sentido, em Pour l’image as projeções tímbricas continuam a ter uma prevalência acentuada, mas assiste-se a transformações que se segmentam em linhas melódicas e em sequências de variações sobre «situações musicais». Existe, portanto, uma integração dos princípios da música espectral com formas de planeamento do discurso onde cabem noções como o desenvolvimento motívico ou a simples repetição. Já não são evoluções sonoras de aparência informe. Tudo decorre sobre uma estrutura explicitamente delineada em que se articulam processos de recorrência no plano geral da obra. As texturas sonoras constroem-se como azulejos de um mosaico. Mantém-se possível vaguear nas progressões sonoras, mas também despertam interesse as relações do que se passou antes com o que vem de seguida. Interpela-se a memória em diferentes níveis de leitura. Por um lado, continua-se a atender às evoluções tímbricas do conjunto instrumental, mas é agora possível identificar interações, articulações e desenvolvimentos. Pour l’image é uma obra que explora essa ambiguidade, entre a atenção global e a atenção diferenciada.

 

Rui Campos Leitão

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