Pelléas et Mélisande é uma peça de teatro de Maurice Maeterlinck, dramaturgo simbolista belga (1862-1949). Teve a primeira representação em Paris em 1893 e a sua importância deve-se em grande medida ao interesse que despertou junto de nomes sonantes da História da Música. Inspirados no ambiente onírico do texto, Claude Debussy, Gabriel Fauré, Arnold Schönberg e Jean Sibelius escreveram obras musicais extraordinárias. Este último compôs em 1905 os números instrumentais que «dialogavam» com a representação declamada. Desviada do contexto cénico original, a suíte orquestral tornou-se numa das obras mais conhecidas do compositor finlandês.
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A história de Pelléas et Mélisande decorre no reino fictício de Allemonde. Golaud, neto do rei Arkel, vagueia pela floresta quando encontra uma bela e misteriosa jovem chamada Mélisande. Leva-a consigo, e casam-se. Já no castelo apresenta a esposa a seu meio-irmão, Pelléas, pelo qual Mélisande se sente logo atraída. Mélisande e Pelléas encontram-se mais tarde à beira de um poço, onde ela brinca com o anel de casamento atirando-o pelo ar. Apesar das advertências, acaba por ver cair o anel nas águas do poço, no preciso momento em que Golaud cai do cavalo no meio da floresta. Mais tarde, Golaud repreende o comportamento de ambos, e descobrem-se os sentimentos mútuos de Pelléas e Mélisande. Pelléas acaba morto pela espada de Golaud, que depois persegue Mélisande, ferindo-a. A cena final acontece num quarto do castelo, com Mélisande no leito de morte. Mélisande deu à luz uma menina, e o rei Arkel determina que a criança viva em seu lugar. Atormentado, Golaud acaba só.
Sibelius escreveu esta obra num momento de viragem da sua carreira. À semelhança de tantos compositores que se achavam em atividade nos primeiros anos do século XX, buscava uma alternativa à monumentalidade expressiva da estética romântica. A dimensão simbolista do texto favorecia, precisamente, o distanciamento em relação à dimensão emocional das personagens. Compôs assim dois melodramas que se sobrepunham à ação, uma canção e sete interlúdios instrumentais. Estas peças cumprem uma função cénica, mas acrescentam leituras alternativas.
Na suíte, os andamentos não aparecem ordenados de acordo com a sequência narrativa de Maeterlinck, mas vale a pensa seguir os títulos de cada uma delas. Na primeira, Na porta do castelo, reconhece-se a solenidade que atravessa toda a composição. Sobre o trémulo dos tímpanos, uma trompa anuncia o nascer do sol sobre o mar. O «retrato» de Mélisande segue ao ritmo de uma valsa discreta, tendo como protagonista o corne inglês, instrumento que simboliza a morte noutras obras de Sibelius. O primeiro melodrama, À beira-mar, evoca os matizes da cor da água, permitindo vislumbrar o impressionismo de Debussy. Junto à fonte, num jardim, Pelléas e Mélisande revelam a paixão mútua, uma vez mais embalados pelo ritmo ternário da valsa – que parece ser tributo a Schönberg. Na torre, escuta-se a canção As três irmãs cegas, originalmente entoada por Mélisande. A imitação do alaúde, no pizzicato das cordas, sugere uma balada medieval. No segundo melodrama da suíte, sugere-se uma paisagem campestre, e no Entreato reconhece-se um interlúdio dançável, uma gavota que adia despreocupadamente o trágico desfecho. Surge, por fim, um sentido lamento, uma conclusão em registo elegíaco e distante.
Rui Campos Leitão
Imagem: «Pelléas et Mélisande», Pintura de Edmund Leighton (1853-1922) | Fonte: Wikimedia Commons