Na vez de Octeto, mais apetece chamar Concerto para Oito Solistas ao Deutsch 803 de Franz Schubert, tal é o protagonismo que os diferentes instrumentos assumem alternadamente. Foi escrito em 1824, em resposta à encomenda de um aristocrata de Viena que tocava clarinete. Entende-se, portanto, que este último sobressaia do conjunto em inúmeras ocasiões. Acontece, porém, que o mesmo se verifica no que respeita ao fagote, à trompa ou a cada uma das partes de cordas.
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Não era comum Franz Schubert receber encomendas da aristocracia vienense. Isso aconteceu no início de 1824, numa altura em que o músico austríaco via agravar-se a doença que o conduziria à morte em menos de cinco anos. Atravessava então momentos de profunda depressão, mas tal não o impediu de responder em escassas semanas com uma partitura de grande fôlego, o Octeto em Fá Maior. Porque era um compositor de matriz clássica, não expressou de forma exuberante o seu estado de ânimo na obra. Afinal, da sua música espera-se sempre uma disposição melódica bem humorada, o que acontece na maior parte do tempo. Não obstante, por vezes interpõem-se ambientes manifestamente dramáticos, sobretudo evidentes no último andamento.
Podemos relacionar este despojamento expressivo com a degradação crescente do seu estado de saúde, e até como prenúncio da Sinfonia D. 944, A Grande. Mas não devemos excluir a inspiração de Beethoven, à época figura extremamente respeitada em Viena e que se preparava para ali estrear a Sinfonia N.º 9. Com efeito, o Octeto de Schubert apresenta muitas semelhanças com o Septeto Op. 20 de Beethoven; desde logo no que respeita à combinação instrumental, acrescentado somente um segundo violino. Aquela composição, datada de 1799, era muito popular no círculo de Schubert e serviu-lhe certamente como referência. Coincidem no formato de um Divertimento com seis secções. Alternam andamentos lentos com outros mais ligeiros em que discorrem padrões rítmicos ternários dançáveis. Os quatro andamentos apresentam-se na configuração de Tema e Variações.
O Octeto de Schubert é uma composição que desafia os intérpretes. Mas também os ouvintes. Ao longo de quase uma hora, a música acontece ao ritmo de uma história que se conta, de uma conversa que se tem. É música em estado puro, ora inquieta ora serena, por vezes exaltante, outras cordata e elegante. Discorre sempre cristalina, cuidada por alguém a quem parecia nunca faltarem ideias.
Rui Campos Leitão
Imagem: Retrato de Franz Schubert em 1825 / Wilhelm August Rieder / Fonte: Wikimedia Commons