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O Revivalismo do Cravo

A partir do início do século XX, o cravo teve uma segunda existência, quer por intermédio da recuperação de partituras dos séculos XVII e XVIII quer através da criação de novo repertório. Um dos compositores que se sentiram atraídos pela sonoridade deste instrumento musical foi o norte-americano Philip Glass. O seu Concerto para Cravo foi estreado em 2002, em Seatle, e respeita a estrutura de três andamentos herdada dos concertos barrocos, assim como o diálogo entre um solista virtuoso e as texturas rítmicas e harmónicas da orquestra. Mas tudo o resto pertence a outro tempo – o nosso tempo.

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Durante o século XIX, o cravo foi relegado para uma dimensão quase exclusivamente museológica. Só no início do século passado foi resgatado do silêncio – da «extinção» –, graças ao entusiasmo crescente pela denominada «música antiga». Para lá das qualidades tímbricas que lhe são tão características, boa parte do fascínio que este instrumento desperta decorre da possibilidade que nos oferece de viajarmos até um tempo distante na boleia do som. Mas há uma nova questão, um novo desafio, que entretanto se coloca. Até que ponto lhe é possível ultrapassar a condição de relíquia musical e tomar cabimento no contexto de uma nova contemporaneidade? A resposta poderá surpreender muita gente. Na lista de compositores que nas últimas décadas compuseram para cravo, destacam-se nomes como Francis Poulenc, Manuel de Falla, Dmitri Schostakovich, Alfred Schnittke, Henryk Górecki, Bohuslav Martinů, Elliott Carter, György Ligeti, Iannis Xenakis, Sofia Gubaidulina, Michael Nyman… O Concerto para Cravo de Philip Glass é dos exemplos mais notáveis. Não esconde reminiscências do passado, já que desde os primeiros compassos ostenta ideias musicais que nos lembram Bach, Scarlatti ou Rameau. Mas tudo se dilui nas texturas minimalistas próprias do seu estilo de escrita. Os fragmentos melódicos repetem-se de maneira obstinada e entrelaçam-se progressivamente em gestos simultaneamente precisos e insinuantes.