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Retrato de Claude Debussy em 1884 | Pintura de Marcel Baschet | Fonte: Wikimedia Commons

26/02/2020

O Prelúdio de Debussy


Quando em 1892 Mallarmé escutou as texturas sonoras que o seu poema inspirou junto de Debussy, afirmou que nunca imaginaria algo semelhante. Com efeito, a música de Debussy era diferente de tudo o que havia sido feito anteriormente. E veio mesmo a influenciar muito repertório subsequente. Para muitos, o Prelúdio à Sesta de um Fauno representa o início do modernismo musical.

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Em finais do século XIX, a exaustão provocada pela ostentação expressiva do romantismo germânico deu origem a vários tipos de evasão. Em França, Debussy ensaiou uma abordagem da composição que viria a revelar-se como percursora do Modernismo. No caso do Prelúdio, apresentam-se aspetos particularmente inovadores. Pode chamar-se um poema sinfónico, porque se inspira num poema, mas não satisfaz uma descrição narrativa. No que respeita à orquestração, distingue-se pela contenção dos meios, dispondo uma fluência tímbrica criteriosa e contrastante com a exuberância sonora tão comum na música orquestral oitocentista. O timbre orquestral é trabalhado com rigor e precisão. Recusa, ainda, um modelo de construção formal baseado na sequência Exposição-Desenvolvimento-Reexposição. Prefere, em vez disso, uma disposição livre, que não é pré-estabelecida. Em conjunto com uma desconstrução deliberada das regras da harmonia convencional, proporciona uma experiência auditiva discretamente persuasiva, próxima da hipnose, que convida a associação do som às cores, aos perfumes e às paisagens.

A Natureza é, com efeito, um elemento recorrente na música de Debussy. Não corresponde, todavia, aos arquétipos expressivos que conhecemos de outros compositores. Há uma neutralidade psicológica nessa contemplação. As sonoridades apresentam-se belas e poeticamente sugestivas, mas desprovidas de uma apreciação explícita ou de sentimentos facilmente reconhecíveis. Por entre uma prática de escrita delicada, extremamente cuidada e sensível, assiste-se a grande frieza. O autor permanece distante. Recusa a condição de personagem romântica. Afasta-se do centro da criação artística. Deixa a música «falar» por si.

No Prelúdio de Debussy destacam-se dois temas melódicos. O primeiro, é um desenho cromático sinuoso protagonizado pela flauta. O segundo é um tema mais convencional, mais lírico e expressivo, onde sobressaem as cordas. Permite ainda distinguir quatro secções diferentes, cada uma delas expostas numa configuração simétrica, A-B-A. A flauta desempenha uma função protagonista, mas funde-se em cada momento com a textura orquestral, sem margem para uma escrita concertante.

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